UFRGS
03/11/2020

(Foto: Divulgação/gov.br)

Era julho de 2015 quando a professora da Escola de Educação Física da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) Stephanie Santana Pinto, aos 32 anos de idade, fez o autoexame das mamas e percebeu um nódulo na mama esquerda. Com viagem de férias programada para os próximos dias, ela correu para fazer exames e biópsia antes do embarque. Ao receber o diagnóstico de câncer, Stephanie suspendeu a viagem, submeteu-se à cirurgia de mastectomia e deu início ao tratamento de oito ciclos de quimioterapia. A pesquisadora, que durante o doutorado em Ciências do Movimento Humano na UFRGS já tinha se apaixonado pela oportunidade de, por meio de sua pesquisa, impactar positivamente a vida das pessoas, resolveu que enfrentaria os efeitos colaterais do tratamento fazendo atividade física e estudando sobre os benefícios disso para a melhoria da qualidade de vida das mulheres. Em parceria com sua médica oncologista do Hospital Moinhos de Vento e com o ex-professor e amigo Ronei Silveira Pinto, da UFRGS, foi possível transformar sua experiência no Projeto Abrace, que investiga o papel do exercício físico na qualidade de vida das pacientes de câncer de mama e faz também extensão ao oferecer às mulheres participantes atividade física supervisionada. Atualmente, o Abrace reúne hospitais, clínicas oncológicas e grupos da UFRGS e da UFPel.

Partindo do conhecimento de que o tratamento quimioterápico para o câncer de mama afeta drasticamente a aptidão física e a qualidade de vida das pacientes devido a efeitos colaterais, como fadiga, perda de força e de capacidade cardiorrespiratória, os pesquisadores do Abrace procuram entender o papel do exercício físico para atenuar esses problemas e qual é a intensidade de atividade adequada para obtenção de benefícios. Eles estudam também grupos de sobreviventes (mulheres que já passaram pelo tratamento), porque os efeitos da quimioterapia persistem mesmo após o fim das sessões. O coordenador do Abrace, professor Ronei Silveira Pinto, do Grupo de Pesquisa Treinamento e Força da Escola de Educação Física, Fisioterapia e Dança (Esefid/UFRGS), dá um exemplo: “Depois de uma sessão de quimioterapia, uma mulher com câncer de mama perde, em média, de 15% a 20% de força. De uma semana para a outra, as pacientes perdem muita massa muscular, afundam sua capacidade cardiorrespiratória”, diz.

Menos é mais

Um dos estudos em andamento procura saber qual é a dose-resposta do exercício de força para as mulheres em tratamento. Nesta pesquisa, as participantes foram divididas em três grupos, por sorteio: um grupo não tem intervenção de atividade física, e os outros dois realizam exercícios aeróbicos e de força. Desses dois últimos, um grupo recebe treinamento de força mais prolongado, fazendo três vezes mais exercícios de força que o outro grupo. A ideia é saber se é necessário treinar tanto assim, ou se com uma carga menor de treino se obtém os mesmos benefícios. O artigo Resistance training in breast cancer patients undergoing primary treatment: a systematic review and meta‑regression of exercise dosage, publicado pelos pesquisadores do Abrace em agosto passado, apresenta uma revisão sistemática de pesquisas nessa área. O estudo sugere que uma baixa dose de treinamento de força pode ser adequada para pacientes em tratamento primário de câncer de mama para aumentar a força dos músculos superiores e inferiores, e que a baixa dosagem é vantajosa, porque pode ser benéfica com reduzido esforço e menor tempo para a realização das sessões de exercícios.

Ronei informa que estudos com idosos mostram que, nos primeiros meses de atividade física, não é preciso treinar muito. “Sabemos que com idosos três vezes menos treinamento significa a mesma coisa, dá o mesmo resultado”, afirma. Segundo ele, as pacientes em tratamento quimioterápico para o câncer de mama, independentemente da idade, apresentam uma condição física semelhante à de idosos com 60 ou 70 anos, então, provavelmente essas mulheres não precisem treinar muito para ter o mesmo benefício. Resultados preliminares nesse sentido foram apresentados na dissertação de mestrado de Pedro Lopez, autor principal do artigo citado, defendida em 2019 no Programa de Pós-Graduação em Ciências do Movimento Humano da UFRGS. A pesquisa com 219 pacientes em tratamento em dois hospitais de Porto Alegre sugeriu um possível benefício usando uma abordagem de mínima dose de exercício.

Essa primeira linha de evidência sobre a dose-resposta de exercício de força nesta população apresentada na dissertação de Lopez será agora ampliada. “Queremos aumentar a amostra para confirmar o que foi identificado até agora, que o menos é mais, que as mulheres que treinaram menos ganharam mais do que as mulheres que treinaram mais”, explica Ronei. Um dos aspectos importantes desse achado é que, como as pacientes ficam com baixa imunidade durante o tratamento, é melhor não forçar tanto o treinamento. Com sessões mais curtas de treino e com menos desconforto, obtém-se um resultado positivo para a qualidade de vida da mulher.

O recrutamento de voluntárias para a nova fase da pesquisa inicia-se em novembro com convite a mulheres que estejam residindo em Porto Alegre ou em Pelotas. Devido à necessidade de distanciamento social imposto pela pandemia de covid-19, os treinos serão realizados pelas participantes em casa com supervisão remota dos pesquisadores. Para isso, as mulheres selecionadas receberão emprestados kits de equipamentos das universidades, devidamente higienizados. Entretanto, como há limite de kits disponíveis para viabilizar essa etapa, os coordenadores da pesquisa estão buscando recursos. O coordenador do Abrace disse que estão procurando apoio de empresas e que o projeto foi submetido a edital da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs) e aguarda avaliação. Se for contemplada, a proposta receberá R$ 150 mil, que cobrirão os custos da pesquisa e serão usados também na compra de um novo equipamento de ultrassonografia para a avaliação muscular das pacientes. Segundo ele, o equipamento disponível atualmente está estragado, e não há dinheiro para seu conserto.

Stephanie, que atualmente faz pós-doutorado na UFRGS, entende que a ampliação da pesquisa é relevante também para contemplar a diversidade socioeconômica entre as pacientes participantes. Comparando-se alguns achados de estudo da UFPel, cujas participantes eram tratadas pelo SUS, com o estudo da UFRGS, que até agora teve apenas pacientes de convênios e particulares, foi possível identificar a importância dessa variável. Segundo Stephanie, as mulheres de renda mais baixa têm mais problema de obesidade, o que interfere nas suas condições de saúde.

Atenção também depois do tratamento

Ronei adianta que mesmo após a conclusão dessa nova fase do estudo, o grupo vai continuar atuando, pois o projeto é também de extensão e contínuo, tendo, inclusive, mulheres que participam dos treinos há um ano e meio. Os benefícios dos exercícios físicos após a conclusão do tratamento foram objeto de estudo realizado na UFPel, cujos resultados constam na dissertação de Elisa Portella, defendida em 2017 no Programa de Pós-Graduação em Educação Física desta universidade. Esse trabalho procurou analisar os efeitos de um programa de treinamento combinado (exercícios de força e aeróbios) na qualidade de vida e nos parâmetros neuromusculares e cardiorrespiratórios em pacientes que completaram o tratamento primário para o câncer de mama, incluindo cirurgia, quimioterapia e/ou radioterapia. Um total de 26 mulheres foi aleatoriamente dividido em dois grupos: o primeiro praticou os exercícios físicos propostos três vezes na semana durante oito semanas, e o outro não modificou hábitos referentes à prática de exercício físico durante todo o período do estudo. Foi verificado que o programa de treinamento foi capaz de melhorar a capacidade cardiorrespiratória e a força das mulheres e de reduzir a fadiga relacionada ao câncer.

Stephanie ressalta a importância dessa pesquisa: “As sobreviventes, como chamamos as mulheres que passaram pelo tratamento, precisam ainda de uma atenção muito grande, porque alguns efeitos permanecem. Ele afeta também a memória recente, a concentração. A fadiga perdura por muito tempo. Algumas mulheres têm ansiedade, depressão”. A pesquisadora, que já enfrentou o câncer de mama, ressalta que, além do exercício físico, é importante para o bem-estar ter alimentação e estilo de vida saudáveis e cuidados com os aspectos emocionais.

Na UFPel, as mulheres participantes da pesquisa são atendidas no Projeto de Extensão Erica, cujo nome foi uma escolha de Stephanie a partir das iniciais das palavras em inglês Exercise Research in Cancer e em homenagem a uma mulher: “O significado é muito maior, porque é uma homenagem a uma menina jovem que lutou contra o câncer de mama bravamente e muito me inspirou. O nome dela era Érica”, revela a pós-doutoranda.

Desde março passado, após o início do período de distanciamento social, as mulheres do Erica estão fazendo os treinos propostos remotamente, por meio de chamada de vídeo. O relato dessa experiência está em artigo já aceito para publicação na Revista Brasileira de Atividade Física e Saúde. O estudo “Exercício físico remoto e fadiga em sobreviventes do câncer de mama: uma intervenção em tempos do covid-19” mostrou que não houve piora na sensação de fadiga das mulheres que já vinham participando presencialmente das sessões de treinamento e passaram a realizar os exercícios remotamente. Conforme Stephanie, a manutenção dos níveis de fadiga é um achado importante, porque mostra que o programa de exercícios remoto contribuiu para mitigar os potenciais efeitos adversos que poderiam ser intensificados pelo sedentarismo advindo da “quarentena”. Ela destaca ainda que a adaptação do projeto para ser possível sua continuidade durante a pandemia evidencia o compromisso social da universidade pública.

A experiência com os treinos remotos anima os pesquisadores para a nova fase da pesquisa sobre a dose-resposta e para a ampliação da abrangência da ação de extensão. Ronei adianta, com entusiasmo, que a ideia é expandir cada vez mais: “Queremos abrir para a participação de mais mulheres. Somos universidade pública, e esse é o nosso papel”. Além dos resultados positivos dos estudos e da mobilização da equipe do Projeto Abrace para fazer acontecer a pesquisa e a extensão mesmo em tempos de baixo orçamento das instituições públicas, um outro fator contribui para esse entusiasmo: o impacto positivo na vida de tantas mulheres.

Informações para mulheres interessadas em participar da pesquisa

As voluntárias devem atender aos seguintes critérios:

  • Idade ≥ 18 anos;
  • Residência nas cidades de Porto Alegre ou Pelotas;
  • Diagnóstico em estágios I-III;
  • Estar fazendo quimioterapia adjuvante ou neoadjuvante ou estar realizando como tratamento apenas a radioterapia;
  • Não ter concluído mais de 50% dos protocolos de quimioterapia ou de radioterapia;
  • Não estar praticando exercício físico sistematizado em período de 3 meses prévios ao estudo;
  • Não possuir comorbidades/comprometimentos musculoesqueléticos que impeçam a prática de exercício físico.

Informações sobre o recrutamento podem ser obtidas por:

  • e-mail – [email protected]
  • instagram – @abracetrial
  • whatsapp – (51) 99302-3340, com João Henkin

ARTIGO CIENTÍFICO

Lopez, P., Galvão, D.A., Taaffe, D.R. et al. Resistance training in breast cancer patients undergoing primary treatment: a systematic review and meta-regression of exercise dosageBreast Cancer (2020). https://doi.org/10.1007/s12282-020-01147-3. [1]

[1] Texto de Patrícia Barreto dos Santos Lima.

Como citar esta notícia: UFRGS. O papel do exercício físico para a qualidade de vida das pacientes com câncer de mama. Texto de Patrícia Barreto dos Santos Lima. Saense. https://saense.com.br/2020/11/o-papel-do-exercicio-fisico-para-a-qualidade-de-vida-das-pacientes-com-cancer-de-mama/. Publicado em 03 de novembro (2020).

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