Jornal da USP
29/04/2021

[1]

Por Cássia Pérez da Silva e Erico Marmiroli, pesquisadores do Programa Interunidades Estética e História da Arte da USP

A pandemia de covid-19 no Brasil tem seu início após o primeiro caso confirmado no dia 26 de fevereiro de 2020, na cidade de São Paulo. A quarentena obrigatória e o distanciamento social, no entanto, têm início apenas em 16 de março de 2020 no Estado de São Paulo e dia 17 de março de 2020 no Rio de Janeiro. Até esse momento, diversas galerias de arte brasileiras já haviam participado de feiras internacionais e estavam se preparando para a SP-Arte 2020, que aconteceria entre os dias 1º e 6 de abril de 2020 na cidade de São Paulo, movimentando cerca de 90 galerias (entre essas, 24 internacionais). A partir do momento em que se decreta a quarentena, os eventos entram em espera: até esse momento não existiam informações de quanto tempo poderia durar a pandemia e o isolamento social, não existia perspectiva dos possíveis efeitos a curto prazo no País e, também, não existia um preparo específico para contenção desse vírus no País além da quarentena e isolamento social.

No que se refere ao mercado brasileiro de arte, existe uma concentração no eixo Rio de Janeiro-São Paulo, onde grande parte das galerias comerciais está localizada (tanto as pertencentes ao mercado primário, quanto as do secundário). Segundo o Sector Study Report realizado pela plataforma Latitude no ano de 2018, apenas 16% das galerias participantes possuíam sede em outro Estado brasileiro fora desse eixo, com destaque para Curitiba (Paraná). Considerando a extensão geográfica do País, esse eixo abarca apenas uma pequena parcela de toda a produção artística nacional. O mercado brasileiro de arte, portanto, concentra-se principalmente nas regiões Sudeste e Sul, tornando-o restrito em outras regiões.

A quarentena, no entanto, se estende até o presente momento, primeiro semestre de 2021, mas os efeitos de 2020 já são palpáveis para o mercado de arte. Se anteriormente uma das maiores dificuldades era lidar com a instabilidade financeira do Brasil, essa dificuldade aumenta conforme a crise generalizada se instala no País devido à pandemia. Na pesquisa de impacto da covid-19 realizada pela plataforma Latitude durante o ano de 2020, nota-se uma variação negativa no volume de vendas entre os meses de abril e junho de 2020, os meses iniciais da quarentena no País.

Vale ressaltar que, nesse período, iniciaram-se as vendas virtuais, sem a possibilidade de qualquer tipo de evento presencial, alterando a dinâmica de vendas das galerias por completo. Para tanto, galerias que não possuíam uma estratégia virtual já formada enfrentaram dificuldades de adaptação. Para enfrentar essa crise e, ao mesmo tempo, não iniciar uma demissão em massa dos funcionários, várias galerias optaram por abrir mão de seu espaço físico nesse contexto, focando em manter seus acervos e seus funcionários.

Essas adaptações, no que diz respeito às galerias de arte, alteraram a dinâmica de trabalho e funcionamento do mercado, tendo a jornada de trabalho alterada e também as aproximações com potenciais clientes que ocorriam nas feiras de arte presenciais, necessitando novas estratégias para que isso ocorresse. O relatório Latitude, quando analisa as mudanças nas dinâmicas de venda no pré e pós-pandemia de covid-19, nota que o contato direto com colecionadores e também a participação em redes sociais (em especial o Instagram) tornam-se elementos cruciais para a realização de vendas.

Apesar da pandemia ainda estar em curso, já é possível entender algumas consequências desta na dinâmica do mercado de arte. A rápida adesão à modalidade virtual, apesar dos percalços, tem gerado resultados positivos para os agentes, demonstrando que a presença virtual será cada vez mais forte nos próximos anos, aumentando as iniciativas das galerias em redes sociais, on-line viewing rooms e novas possibilidades que possam surgir futuramente. A inserção do virtual trouxe alguns benefícios no que se refere à internacionalização do mercado de arte, uma vez que permitiu o acesso a um público amplo, antes restrito devido a dificuldades geográficas. Demonstrou, também, que apesar da facilidade que o on-line traz, este é apenas um canal e cabe aos galeristas e equipes criarem estratégias de otimização desse canal para que os efeitos sigam positivos.

Os mais prejudicados nesse momento foram os artistas. Os efeitos dessa pandemia para eles serão notados nos próximos anos, uma vez que sofrem precarização de financiamento de exposições, dificuldades de difusão devido a limitações causadas pelo virtual e o consumo, muito pautado pela experiência, cada vez mais prejudicado. As conclusões tiradas pela análise nos levam a mais perguntas e questionamentos acerca das estratégias a serem adotadas para minimizar esses prejuízos de todos os agentes, de maneira que o elo mais fraco desse sistema em rede não se veja com danos que possam vir a ser irreparáveis. [2]

[1] Foto: Reprodução, Flickr, Domínio público.

[2] Texto de Cássia Pérez da Silva e Erico Marmiroli.

Como citar este texto: Jornal da USP. A pandemia de covid-19 e o mercado de arte brasileiro, primeiros efeitos.  Texto de Cássia Pérez da Silva e Erico Marmiroli. Saense. https://saense.com.br/2021/04/a-pandemia-de-covid-19-e-o-mercado-de-arte-brasileiro-primeiros-efeitos/. Publicado em 29 de abril (2021).

Notícias do Jornal da USP     Home