IPT
06/02/2023

Podas das árvores urbanas acontecem na maioria das cidades brasileiras com uma frequência acima do necessário, com o objetivo de livrar a árvore da fiação elétrica e outras possíveis interferências [1]

Talvez você já tenha se perguntado a destinação de galhos e troncos das árvores que passam por operações de poda de limpeza ou supressão em sua cidade. Você sabia que é possível fabricar móveis e brinquedos a partir dos resíduos? E que diversos negócios de design estão surgindo e se destacando no nicho de produtos sustentáveis ou eco-chic?  Para expandir o conhecimento sobre o reaproveitamento de galhos e troncos, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP) se uniram em 2021 para pensar em formas de agregar valor a estes resíduos e um dos resultados desta parceria é a publicação do e-book ‘Resíduo de poda urbana: como reaproveitar?’.

As árvores convivem nos centros urbanos com estruturas urbanas como postes, redes de energia elétrica e construções e, por isso, sofrem diversas podas para adequação ao pouco espaço que é oferecido a elas. Infelizmente, na maioria das cidades brasileiras, as podas das árvores urbanas acontecem com uma frequência acima do necessário, com o objetivo de livrar a árvore da fiação elétrica e outras possíveis interferências, sendo alto o volume de material podado anualmente. A aproximação entre a FAUUSP e o IPT começou a tomar corpo no final de 2020 com a aprovação de um projeto de pesquisa submetido por docentes da FAU junto à Superintendência de Gestão Ambiente da USP, intitulado ‘Valorização de resíduos lenhosos provenientes do manejo arbóreo: contribuição à gestão para a sustentabilidade no Campus Armando Salles de Oliveira da Universidade de São Paulo’.

Nessa época, o IPT já tinha os primeiros resultados de um projeto de capacitação intitulado ‘Soluções técnicas para gestão de resíduos de árvores urbanas de Bertioga/SP’, que foram apresentados no 13º Seminário Internacional do Núcleo de Pesquisa em Tecnologia da Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (NUTAU/USP). O IPT executa projetos que contam com o conhecimento acumulado sobre madeira, florestas urbanas e tratamento de resíduos sólidos e a FAUUSP desenvolve projetos em que aplica sua experiência em ensino, pesquisa e difusão técnica. Ambas as instituições buscam alternativas de uso para os resíduos da poda de árvores urbanas com maior agregação de valor e geração de serviços ambientais, mas cada uma delas se concentrava em executar atividades associadas à sua expertise. “A partir do desenvolvimento das atividades do projeto no campus da USP, do conhecimento prévio do envolvimento do IPT com o tema e sabendo da sua competência relacionada à área de ensaios de caracterização e identificação de propriedades de madeiras, a equipe coordenadora convidou o IPT para uma reunião. Houve então a constatação de interesses comuns e a efetiva aproximação das equipes”, explica Cyntia Santos Malaguti de Sousa, professora do Departamento de Tecnologia da Arquitetura da FAUUSP.

PASSO A PASSO – O desenvolvimento de um e-book pelo IPT e a FAUUSP foi uma das ideias que surgiram durante as discussões pelas duas equipes no decorrer da parceria. A publicação lançada agora traz reflexões dos pesquisadores e professores sobre o tema e apresenta opções para superar os desafios relacionados à gestão de resíduos de poda, auxiliando gestores da arborização urbana em diversas escalas. 

“O e-book foi concebido como um passo a passo para possibilitar o reaproveitamento dos resíduos de poda e mostra que é preciso primeiramente conhecer minimamente as árvores da área de interesse, que pode ser a arborização de um município, de um bairro, de um parque, de um condomínio ou de outro território definido”, explica a pesquisadora e gerente do projeto no IPT, Caroline Almeida Souza. 

Em seguida, é necessário fazer a quantificação da composição física e gravimétrica média dos resíduos de poda: esta determinação possibilita a realização de estudos de aplicação de tecnologias de tratamento, reaproveitamento e reciclagem dos materiais, reduzindo assim o desperdício de um material nobre e a sua disposição em aterros. 

O terceiro passo é a caracterização tecnológica das espécies de árvores analisadas, por meio de ensaios físicos e mecânicos realizados em amostras de resíduos de poda. A caracterização é importante na indicação do potencial de uso da madeira destes resíduos para finalidade estrutural e na fabricação de móveis e pequenos objetos de madeira. 

Este passo a passo foi colocado em prática pelas equipes durante o projeto-piloto realizado na cidade litorânea de Bertioga e o e-book traz uma série de exemplos do reaproveitamento de resíduos levantados durante a sua execução, com informações das espécies em fichas técnicas contendo um resumo de suas características e usos potenciais. 

PÚBLICO-ALVO – “O público principal do e-book são municípios brasileiros que podem se inspirar na metodologia construída com Bertioga e concluir que utilizar resíduos das podas urbanas de uma forma mais inteligente e sustentável não é uma meta impossível de ser atingida. Profissionais que utilizam madeira para desenvolverem produtos, como artesãos e designers, também podem se interessar pela publicação”, explica Souza. Concessionárias de energia elétrica também já se interessaram pelo estudo, visando um melhor destino para as podas realizadas por eles e por suas terceirizadas. 

Os números levantados no trabalho corroboram a importância da destinação correta dos resíduos: a Prefeitura Municipal de São Paulo estima recolher de 3,5 a 4 mil toneladas de resíduos da poda de árvores por mês – ou seja, o volume anual pode chegar a quase 50 mil toneladas de galhos e troncos. Já a cidade litorânea de Bertioga, no estado de São Paulo, gera 180 toneladas de resíduos de poda por mês, o que totaliza pouco mais de duas mil toneladas por ano – ou seja, os números mostram que a quantidade desse tipo de resíduo é expressiva, seja para um município grande ou pequeno. 

“Esperamos que a publicação colabore para lembrar que o resíduo gerado pelas podas urbanas deve ser reconhecido como material nobre e de grande importância, podendo ter um uso adequado, fechando um ciclo mais sustentável e evitando o aterro sanitário como destino final”, completa a pesquisadora da Seção de Planejamento Territorial, Recursos Hídricos, Saneamento e Florestas do IPT, Giuliana Del Nero Velasco. 

PRÓXIMOS PASSOS – A parceria entre o IPT e a FAUUSP deve continuar: segundo os professores da faculdade, a expectativa é ampliar o campo de atuação com o desenvolvimento de projetos de pesquisa e extensão universitária que tenham maior amplitude e impacto, e a intenção dos docentes/pesquisadores da FAU é captar recursos em agências de fomento e consolidar parcerias com outras instituições públicas e privadas.  

“Neste momento, há um projeto em andamento (2022-2025), do qual técnicos do IPT também participam, que conta com apoio científico e financeiro de chamada CNPq, intitulado ‘Prototipagem em design de produtos: processos produtivos experimentais com resíduos arbóreos urbanos’”, explica o professor da FAUUSP, Tomás Queiroz Ferreira Barata.  

Este projeto tem como objetivo principal promover a experimentação e o desenvolvimento de protótipos de produtos com emprego de materiais locais de base florestal associando processos convencionais de marcenaria e tecnologias subtrativas de Fabricação Digital (FD). Os participantes esperam assim definir rotas tecnológicas e identificar as melhores potencialidades de emprego de madeiras provenientes de podas urbanas em produtos e componentes. 

Clique aqui para fazer o download do e-book

[1] Foto: IPT.

Como citar este texto: IPT. Resíduos sustentáveis de poda.  Saense. https://saense.com.br/2023/02/residuos-sustentaveis-de-poda/. Publicado em 06 de fevereiro (2023).

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