Agência FAPESP
27/04/2023

Solução micelar em spray pode auxiliar na desinfecção de superfícies e equipamentos, sem causar corrosão. Tecnologia está disponível para licenciamento (foto: Pedro Amatuzzi/Inova Unicamp)

Agência FAPESP* – Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desenvolveram um desinfetante que, ao ser aplicado sobre uma superfície na forma aquosa, transforma-se imediatamente em gel. Tal característica evita que o produto escorra rapidamente pelo material, prolongando sua permanência e aumentando a eficiência no controle de microrganismos. Por outro lado, lhe possibilita alcançar frestas, poros e ranhuras que uma formulação com alta viscosidade dificilmente conseguiria penetrar.

“O objetivo da pesquisa foi desenvolver um desinfetante com alto poder bactericida que, ao ser aplicado na forma aquosa, reagisse no local formando instantaneamente um gel, com uma composição menos tóxica e menos corrosiva para a limpeza de ambientes e diferentes superfícies”, comenta o professor do Instituto de Química (IQ-Unicamp) Edvaldo Sabadini.

O invento, explica o cientista, se baseia em um dos fundamentos da química. “O mesmo mecanismo que levou à formação das membranas nos organismos mais primitivos que deram origem à vida, denominado ‘efeito hidrofóbico’, promove a formação do gel bactericida.” Trata-se da criação de micelas gigantes, agregados moleculares também conhecidos por seu formato alongado.

O trabalho foi poiado pela FAPESP no âmbito do Projeto Temático “Organizando a matéria: coloides formados por associação de surfactantes, polímeros e nanopartículas”.

A nova formulação contém dois compostos muito conhecidos no mercado por seu poder bactericida, sendo usados em enxaguantes bucais. São eles o cloreto de cetilpiridínio e o timol. “A literatura já relata a ação bactericida do cetilpiridínio e do timol há muito tempo. Acreditávamos que as duas substâncias bactericidas apresentavam todas as características estruturais necessárias para a formação das micelas gigantes em água”, pontua Sabadini.

Transição de fase

A formação dos hidrogéis ocorre quando as duas substâncias que se encontram dissolvidas em água, mas em compartimentos separados, são combinadas no spray. Separadas, elas apresentam a mesma viscosidade da água, mas, quando combinadas, formam rapidamente o gel. A malha formada é capaz de aprisionar uma grande quantidade de água, garantindo as características do gel bactericida.

Um aspecto interessante da invenção capaz de gerar inovação no setor de produtos de limpeza é a viscosidade do gel, que pode ser facilmente ajustada variando-se concentração e proporção dos dois componentes. Géis mais consistentes podem ser obtidos usando uma concentração maior de micelas gigantes, pois, nesse caso, formam-se mais destes “espaguetes moleculares”, que, portanto, se entrelaçam mais.

“Quando você combina esses dois ingredientes, além da produção do gel, cria um sinergismo em relação ao poder bactericida”, explica Sabadini. Testes realizados em laboratório demonstraram que o produto apresenta especial efeito contra uma espécie de Salmonella causadora de infecções recorrentes na produção de suínos.

Aplicações

De acordo com Sabadini, o desinfetante em gel pode ser empregado na limpeza de diferentes superfícies – como metal, plástico, vidro, madeira e azulejos –, principalmente em superfícies mais porosas e inclinadas, nas quais é desejável que o produto mantenha sua atuação desinfetante por algum tempo sem escorrer.

“Você pode ter um gel bactericida colocando polímero em uma formulação bactericida, mas, nesse caso, o gel pode não atingir regiões mais restritas, por ser viscoso. O diferencial desta invenção é que o aumento de viscosidade somente ocorre quando os dois líquidos, pouco viscosos se separados, entram em contato. Com isso você consegue maior cobertura de superfícies porosas e melhor desinfecção”, exemplifica.

A formulação proposta no invento não contém hipoclorito de sódio, sendo uma alternativa para boa parte dos produtos de limpeza disponíveis no mercado. O composto não apresenta desvantagens como degradação do ativo por ação microbiana ou degradação química.

O gel bactericida também não tem propriedades corrosivas, que podem danificar equipamentos. As micelas agem sem agredir a estrutura que estão higienizando. O produto ainda é lavável e de fácil remoção. Ao aplicar água na superfície que recebeu o gel, a diluição resulta na desagregação instantânea das micelas gigantes e seus componentes são facilmente removidos.

Transferência de tecnologia

O ineditismo da pesquisa científica e o potencial de aplicação industrial da composição antimicrobiana levaram a Agência de Inovação Inova Unicamp a solicitar a proteção da propriedade intelectual do invento no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Atualmente, a tecnologia faz parte do Portfólio de Patentes da Unicamp e está disponível para licenciamento.

Empresas e instituições públicas ou privadas interessadas na transferência da tecnologia para inovação de seus produtos ou processos podem entrar em contato diretamente com a Inova Unicamp pelo formulário de conexão pesquisa-mercado disponível no site da agência. Além do acesso a tecnologias de ponta, a transferência de tecnologia reduz riscos associados ao desenvolvimento de novos produtos e processos inovadores e colabora para o desenvolvimento socioeconômico baseado no conhecimento científico.

* Com informações da Inova Unicamp.
Este texto foi originalmente publicado por Agência FAPESP de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND. Leia o original aqui.

Como citar este texto: Agência FAPESP. Pesquisadores da Unicamp desenvolvem desinfetante que gelifica no instante da aplicação. Saense. https://saense.com.br/2023/04/pesquisadores-da-unicamp-desenvolvem-desinfetante-que-gelifica-no-instante-da-aplicacao/. Publicado em 27 de abril (2023).

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