Jornal da USP
27/04/2023

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Por Malyina Ono Leal, doutora pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, Marília Mendes Ferreira, professora da FFLCH-USP, e Osvaldo N. Oliveira Jr., professor e diretor do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP

A comunicação, em ambientes acadêmicos e para o público em geral, é hoje crucial para que universidades de pesquisa cumpram sua missão. O prestígio de universidades depende de sua capacidade de gerar conhecimento, principalmente com publicações. Embora não possamos aceitar rankings como verdade absoluta, é impossível negar que a comunidade acadêmica, assim como órgãos de imprensa, valoriza a classificação das instituições. Nos rankings do The Times Higher Education Ranking (THE) e Academic Ranking of World Universities (ARWU), cerca de 60% do peso das avaliações é atribuído às publicações de artigos científicos. Esse conceito de que o valor acadêmico das universidades está ligado à produção científica explica a importância crescente de publicações em revistas internacionais.

A exigência desse tipo de publicação aumenta progressivamente na Universidade. Várias unidades da USP exigem que doutorandos publiquem artigos em revistas indexadas ou bem classificadas no Qualis da Capes para depositar suas teses. A pressão recai também sobre os orientadores, que precisam publicar internacionalmente para manter seu credenciamento como orientadores de pós-graduação.

Respondendo à demanda, o volume de publicações em periódicos internacionais teve um crescimento expressivo nas últimas décadas, de acordo com um levantamento da Clarivate Analytics para a Capes. No Brasil, o esforço de pesquisadores para desenvolver pesquisas importantes, escrever e publicar artigos em periódicos internacionais resultou no estágio atual em que o Brasil se encontra: 13º lugar em volume de publicações indexadas.

A grande maioria desses pesquisadores empenhou recursos próprios e trilhou um caminho árduo para chegar ao sucesso em suas publicações. Essa constatação foi reforçada por dados de uma tese defendida recentemente na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Da resposta de pesquisadores ouvidos no estudo, observou-se que tanto o letramento científico, em específico a produção escrita, quanto a aquisição da língua estrangeira são frutos de esforço individual. A grande maioria dos participantes apontou que há poucas ações institucionais para que pesquisadores possam aprender a escrever artigos científicos durante a graduação e pós-graduação. Presume-se que ao se tornar pesquisador, o indivíduo terá, na língua estrangeira, a habilidade necessária e o repertório retórico para mostrar a importância de sua pesquisa, dar ênfase e discutir os resultados conforme a expectativa dos editores e leitores dos periódicos internacionais – sem que ele tenha recebido instrução ou orientações para isso.

Podemos perceber aqui dois obstáculos para o crescimento da divulgação da pesquisa de cientistas brasileiros em veículos internacionais. Em primeiro lugar, não há provisão de suporte linguístico nas universidades para que pesquisadores atinjam o nível de proficiência em língua estrangeira, particularmente na escrita, necessário para publicar internacionalmente. Os respondentes do estudo mencionado que reconhecem ter bom nível de proficiência em inglês – atualmente a principal língua para publicações – estudaram em boas escolas privadas, ou fizeram cursos de línguas em instituições especializadas e/ou estudaram com professores particulares. É clara a desvantagem daqueles que não têm condições econômicas para ter acesso a essa instrução.

O segundo e maior obstáculo é que não há provisão sistemática de instrução para a escrita científica. Os participantes do estudo indicaram que suas fontes de instrução são primordialmente a leitura de artigos, a prática, orientadores de doutorado, recursos da internet e workshops. Dentre esses, apenas dois recursos podem fornecer interação e feedback para que haja aprimoramento: a prática e os orientadores. Entenda-se como prática a tentativa e erro, entre submissões às revistas, rejeições e solicitações de revisão de editores e avaliadores; isto é, aprende-se errando onde o objetivo deveria ser de acertar. Os orientadores têm todo o interesse em apoiar e orientar a escrita de seus alunos. Porém, além de frequentemente sobrecarregados por suas funções acadêmicas e administrativas, poucos têm treinamento para efetivamente instruir seus orientandos nesse aspecto.

O conhecimento tácito adquirido com a experiência não necessariamente faz do orientador um bom instrutor de letramento científico. Este fato é denotado também pelo pequeno número de participantes que indicou o orientador como fonte de instrução.

A falta de instrução em escrita científica é refletida na dificuldade expressa pelos pesquisadores na construção dos argumentos nos seus artigos. A grande maioria dos participantes da pesquisa classificou como “difícil” e “muito difícil” construir a argumentação na escrita das seções de introdução, análise e discussão de resultados de forma satisfatória nos seus artigos em inglês. Se essa dificuldade é apontada por pesquisadores que já publicam em periódicos internacionais, é razoável deduzir que ela deve ser ainda maior para os menos experientes. Isso inviabiliza uma meta essencial dos programas de pós-graduação, qual seja, o de que o pesquisador em formação precisa aprender a escrever e publicar de forma autônoma, com pouco apoio.

Quando perguntados sobre ações que os participantes acreditam ser importantes para que pesquisadores iniciantes possam publicar em periódicos internacionais, 97% dos participantes apontaram a instrução em escrita científica em inglês como “importante” ou “muito importante”, confirmando a necessidade da institucionalização dessa ação.

Enfatiza-se a importância dessa institucionalização, uma vez que não há disponibilidade de cursos de letramento científico em língua estrangeira para publicação – diferentemente da abundante oferta de cursos de línguas no mercado – pois a publicação de artigos em periódicos é uma atividade acadêmica muito particular à universidade e aos centros de pesquisa. Porém, é importante lembrar que a falta de provisão de instrução de língua estrangeira dentro da universidade mantém a atual desigualdade na atividade de publicação científica.

As universidades públicas – entre as quais a USP se destaca – são os principais centros de produção de conhecimento no Brasil. Para que seus pesquisadores possam comunicar os seus trabalhos em periódicos internacionais de forma mais efetiva, o apoio das instituições é primordial. À luz da constatação de que a falta de letramento em escrita científica e a dificuldade com língua estrangeira são dois grandes obstáculos para a comunicação do conhecimento gerado através das pesquisas, acreditamos que investimentos nessas duas áreas são fundamentais para que esses obstáculos sejam vencidos.

Neste espaço focalizamos a necessidade de letramento acadêmico para publicações internacionais. Não menos relevante, porém, é o letramento acadêmico em português, requerido para todo o processo educacional. Aqui também se notam assimetrias na experiência no uso da língua entre alunos que frequentaram boas escolas e outros que não tiveram essa oportunidade. Uma preparação adequada para o letramento acadêmico em português também se faz necessária como uma estratégia de inclusão. [1], [2]

[1] Imagem: ReadyElements, PxHere, CC0.

[2] Publicação original: https://jornal.usp.br/artigos/letramento-academico-e-essencial-para-uma-universidade-de-pesquisa/.

Como citar este texto: Jornal da USP. Letramento acadêmico é essencial para uma universidade de pesquisa.  Texto de Malyina Ono Leal e outros autores. Saense. https://saense.com.br/2023/04/letramento-academico-e-essencial-para-uma-universidade-de-pesquisa/. Publicado em 27 de abril (2023).

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