UnB
13/04/2023

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Jeremias Arraes

O professor e filósofo norte-americano Michael Sandel ministra um dos cursos mais procurados na Universidade de Harvard. Neste curso, denominado Justiça: Qual a coisa certa a fazer? [1], Sandel aborda diversos temas que colocam em conflito a Lei e a moral, criando debates entre os alunos para que haja uma reflexão do que é certo ou errado.

O curso traz debates de temas como: Qual o preço de uma vida? Liberdade de escolha; quem é meu dono? Obediência; direito de propriedade; o bom cidadão; o que merecemos? Uma lição sobre mentira; princípio supremo da moralidade; dentre outros. A intenção de Sandel, é forçar os estudantes a repesarem seus conceitos morais e éticos, despertando um sentimento de solidariedade, por meio do qual eles possam implementar políticas que resultarão em bonança a um corpo social.

A recente pandemia agregada aos problemas sociais, econômicos e políticos que os brasileiros vivenciam há alguns anos, nos deixaram ainda mais vulneráveis a imoralidade, a impassibilidade e a práticas maldosas que só resultam em prejuízos a uma sociedade. Assim, ao contrário das aulas do professor Sandel, que têm propósito de motivar o cidadão a praticar a solidariedade, nossa população se mostra cada vez mais negligente na preocupação de fazer o bem ao próximo.

Muitos desses problemas podem ser observados por meio do mal uso da comunicação nas mídias sociais, com o agravante do volume de informações compartilhadas em um curto espaço de tempo. A Sortlist, agência especializada em marketing digital, divulgou em 2022 [2] um estudo realizado com 42 países, que mostra quanto tempo em média uma pessoa gasta nas redes sociais. O resultado da pesquisa mostra o Brasil como o segundo país com mais tempo gasto em redes sociais (média de 3 horas e 42 minutos por dia ou 56 dias por ano).

Portanto, com 90% dos domicílios do país tendo acesso à internet [3], e o brasileiro dedicando tanto tempo as redes sociais, é provável que você já tenha recebido e compartilhado textos, imagens e vídeos dos mais diversos assuntos, sem que se preocupasse com a origem, a veracidade ou a qualidade da informação repassada e ao fazer isso, você já se perguntou se sua atitude foi a coisa certa a fazer?

Virou algo comum encontrar nas nossas redes sociais amigos e parentes que se tornaram especialistas em determinados assuntos da noite para o dia. Assuntos de extrema complexidade como os que envolvem a ação do Estado no período pandêmico, política, diversidade de gênero e vacinação contra a covid-19 são abordados de forma superficial sem nenhuma preocupação em ajudar a solucionar ou amenizar um problema. A consequência disso, é a formação de uma sociedade cada vez menos solidária.

Vivenciamos, no período pandêmico ocasionado pelo coronavírus (causador da covid-19), a publicação de normas que estabeleceram reclusão social, fechamento do comércio e das escolas, indisponibilidade dos serviços públicos, etc. e que acabaram por interferir diretamente nos direitos constitucionais de liberdade e propriedade do indivíduo. A população ao se deparar com essas ações do Estado, que buscava manter a ordem e o controle da saúde no país, ficava ainda mais insegura com as informações compartilhadas de forma irresponsável.  

Foram noticiados diversos conflitos no país onde de um lado estava o Estado, que obrigava o cumprimento da Lei e do outro lado alguns indivíduos que entendiam que as medidas adotadas pelo Estado eram rígidas e auferiam seus direitos de liberdade e propriedade. Fato é que o período pandêmico só evidenciou que não somos uma boa sociedade, pois uma sociedade, em tempos de dificuldade, permanece unida, onde as pessoas se preocupam umas com as outras e tentam se ajudar reciprocamente.

Superado o período pandêmico, começam as discussões nas redes sociais sobre as vacinas: vacinar ou não? Vacinar crianças ou não? Contudo, o debate que, a priori, deveria ser saudável, pois gera um conhecimento sobre determinado assunto e possibilita tomar a melhor decisão para si ou para outrem, é realizado com base nos argumentos do achismo e que desconsideram a ciência e os estudos que indicam o que seria melhor para sociedade. Logo, o compartilhamento de informações, principalmente aquelas relacionadas à saúde, quando encaminhadas sem o devido zelo, acabam causando prejuízos à vida das pessoas.

Mais recente, um indivíduo gravou um vídeo [4] criticando um shopping por ter destinado uma vaga para pessoas neurodiversas, que segundo ele, seria para atender a comunidade LGBTQIA+. O vídeo viralizou e foi compartilhado por milhares de pessoas, muitas delas, sem conhecimento de que a neurodiversidade, inclui, por exemplo, pessoas com transtorno do espectro autista (TEA) e nada tem relação com comunidade LGBTQIA+. Esta matéria resume minha tentativa de discorrer um pouco sobre os ensinamentos do professor e filósofo Michael Sandel sobre qual a coisa certa a fazer. Pois ela nos mostra a ausência da solidariedade, o compartilhamento de informações sem o devido conhecimento e o mal que essas ações impensadas causam na vida das outras pessoas.

Então, compartilhando com vocês essa reflexão, deixo a seguinte indagação: o que você tem feito com os conteúdos que recebe nas suas redes sociais? Ou melhor, você sabe a coisa certa a fazer com esses conteúdos? [2], [3]

[1] Imagem: AJEL / Pixabay

[2] Jeremias Pereira da Silva Arraes é contador, pesquisador e professor. Doutorando em ciências contábeis e mestre em Gestão Pública pela Universidade de Brasília.

[3] Publicação original: https://www.noticias.unb.br///artigos-main/6460-qual-a-coisa-certa-a-fazer

Como citar este texto:  UnB. Qual a coisa certa a fazer. Texto de Jeremias Arraes. Saense. https://saense.com.br/2023/04/qual-a-coisa-certa-a-fazer/. Publicado em 13 de abril (2023).

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