Jornal da USP
11/04/2023

Dificuldades na mastigação. Participantes do estudo foram instruídos a misturar dois chicletes. Os chicletes da imagem A são do grupo controle (sem prótese); os de B de quem usava próteses removível total; e os de C de quem tinha prótese removível parcial – Foto: Acervo dos pesquisadores

Pesquisadores da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) da USP estudaram os impactos de próteses dentárias removíveis na qualidade de vida, na eficiência mastigatória e na limitação da função mandibular dos pacientes. Os resultados dos testes objetivos e subjetivos apontam para uma menor qualidade da saúde bucal e para a importância da preservação da estrutura dentária ao longo dos anos.

O estudo, que começou como projeto de extensão na FOB, foi publicado no The Journal of Prosthetic Dentistry e analisou os fatores da qualidade de vida bucal em pacientes com próteses removíveis totais (totalmente sem dentes) e próteses removíveis parciais (parcialmente desdentados). No caso das próteses totais removíveis, elas possuem um papel social importante, já que são de menor custo do que outras opções de tratamento para pacientes sem os arcos dentários, como próteses sobre implantes, próteses retidas por implantes e próteses totais. 

“Por muito tempo os dados sobre reabilitação com próteses removíveis foram empíricos. Nós não sabíamos o quanto isso poderia melhorar a qualidade de vida e impactar na eficiência mastigatória, por isso foi importante trazer dados mais quantitativos”, diz Carolina Yoshi Campos Sugio, doutoranda em Reabilitação Oral, em entrevista ao Jornal da USP.

Impacto no cenário social

No Brasil, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, 33% da população brasileira usava algum tipo de prótese dentária. Dentro desse recorte, 72% da população acima de 60 anos usa algum dispositivo. “As próteses removíveis têm um papel importante no cenário social e na reabilitação oral dos pacientes brasileiros, porque elas têm um custo menor, ou por algum fator anatômico do paciente, como falta de ossos”, destaca Carolina Sugio.

Por causa da importância dessas próteses no contexto brasileiro, a metodologia do estudo foi voltada para a percepção dos pacientes quanto à qualidade de vida. Linda Wang, professora do Departamento de Dentística da FOB, explica que na reabilitação oral é importante “dar o atendimento dentro de cada possibilidade, sabendo que o que queremos gerar é qualidade de vida. E mais do que isso, esse trabalho mostra o quanto envolvemos o paciente na análise para reportar o quanto os métodos funcionam para ele, de forma a unir técnica profissional com o dia a dia do paciente.”

Para analisar os aspectos das próteses removíveis, os pesquisadores aplicaram três testes. O questionário OHIP-14 avaliou, de acordo com a percepção do paciente, a qualidade de vida em relação a desconfortos e à realização de atividades diárias; o questionário JFLS-20 mediu a limitação da função mandibular para sorrir, falar, mastigar, abrir a boca, entre outros. Por fim, foi aplicado um teste objetivo para avaliar a eficiência com que os pacientes mastigaram dois chicletes, sendo analisado por software o quanto dos chicletes foram misturados.

Para obter uniformidade nos resultados, o estudo forneceu o mesmo tipo de dispositivo aos participantes. Victor Mosquim, doutorando em Dentística pela FOB, ressalta que os voluntários do estudo já usavam próteses anteriormente, logo, a troca por uma nova não alterou tanto a qualidade de vida relacionada à saúde bucal e, por isso, o impacto da mudança não foi grande, apesar de existente. A limitação da função mandibular foi maior para usuários com as próteses do que para os indivíduos dentados. Em relação à função mastigatória, “as pessoas que foram reabilitadas com qualquer um dos tipos de prótese não tiveram a mesma eficiência mastigatória que o grupo controle, que eram pessoas que tinham todos os dentes na boca”, diz o pesquisador.

Em comparação entre as próteses removíveis, a reabilitação parcial proporcionou uma condição melhor do que a reabilitação total.

“A principal evidência do estudo é que essas próteses, por mais adequadas que estejam, ainda não substituem os dentes naturais. Então, temos que nos manter focados na preservação da estrutura dentária ao longo da vida.”

Os pesquisadores também chamam a atenção para a qualidade de vida de pacientes de baixa renda, que talvez não consigam ser recapacitados com prótese sobre implantes e podem apresentar algum tipo de limitação da mastigação, mesmo após a reabilitação com próteses removíveis. Por isso, para estes pacientes, a manutenção dos dentes ao longo da vida é ainda mais importante.

“O impacto da pesquisa é o benefício direto à sociedade. Eu acho que esse estudo trabalha dentro da realidade brasileira e das demandas do nosso País, para poder preservar a saúde bucal, o que leva a menores custos na saúde dos pacientes”, conclui Linda Wang.

A pesquisa é resultado de uma ação continuada de extensão e ensino do Programa de Educação Tutorial, o PET, iniciativa do governo federal.

Mais informações: e-mail wang.linda@usp.br, com Linda Wang [1], [2]

[1] Texto de Julia Custódio.

[2] Publicação original: https://jornal.usp.br/noticias/usuarios-de-proteses-dentarias-removiveis-tem-mastigacao-e-qualidade-de-vida-prejudicadas/.

Como citar este texto: Jornal da USP. Usuários de próteses dentárias removíveis têm mastigação e qualidade de vida prejudicadas.  Texto de Julia Custódio. Saense. https://saense.com.br/2023/04/usuarios-de-proteses-dentarias-removiveis-tem-mastigacao-e-qualidade-de-vida-prejudicadas/. Publicado em 11 de abril (2023).

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