Fiocruz
11/04/2023

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Quando Marta, Kelly e Caroline chegaram ao projeto Jovens Investigadores, suas vidas já estavam entrelaçadas aos temas de suas pesquisas. Marta Rayane organizava ações de distribuição de absorventes íntimos no  através da iniciativa Solidariedade Feminista por Dignidade Menstrual. Kelly Araújo pensava em voltar seu olhar de pesquisadora para a comunidade quilombola em que nasceu e cresceu na cidade de Grajaú, no Maranhão. E Caroline Anice praticava a poesia e frequentava as batalhas de Slam na periferia de Salvador. 

Essa relação íntima entre vida e pesquisa não é coincidência, mas um estímulo consciente dos Jovens Investigadores em Saúde e Juventude. O programa busca fortalecer essa conexão cativando as novas discussões e perspectivas em saúde da juventude brasileira contemporânea. “Essa é a aposta dos Jovens Investigadores”, comenta André Sobrinho, coordenador da Agenda Jovem Fiocruz, plataforma que abriga o projeto e que centraliza e desenvolve iniciativas para a juventude no campo da saúde. “É entender de que maneira temos diferentes gerações construindo, por exemplo, o direito à saúde no Brasil e o SUS, mas, ao mesmo tempo, temos novas demandas surgindo a partir de necessidades que são distintas, que só esta geração de jovens pode compreender”.

Aqui, o uso da palavra “juventude” no plural é fundamental. André considera a multiplicidade de contextos e identidades que constituem esse segmento cujo universo de reflexão é amplo até mesmo do ponto de vista etário. Isso porque existem duas legislações que cobrem os direitos juvenis no Brasil: o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que define como adolescente aquele entre 12 e 18 anos, e o Estatuto da Juventude, sancionado em 2013, que engloba os jovens entre 15 e 29 anos. “Elas [as legislações] não existem à toa. Cada uma tem seus princípios constitutivos. O que faz com que olhemos para essa população de maneira diferenciada”, aponta André. 

O programa Jovens Investigadores é voltado para quem tem entre  21 e 30 anos por entender que esse grupo apresenta necessidades específicas — “sejam elas de educação, de acesso à renda, de trabalho e de saúde”, como explica o coordenador. Porém, mais do que meramente o fator etário, são os marcadores socioeconômicos e culturais que revelam e solidificam o que André chamou de “condição juvenil”. “Ela é diversa para homens e mulheres; para quem mora no Leblon, e para quem mora em Manguinhos; para quem mora na área urbana e na área rural. Está relacionada aos padrões e orientação sexuais”, afirma.

Dentre as demandas mais urgentes para as juventudes contemporâneas, André enumera temas que, na sua visão, estão revelando dados intensos e conversando com a experiência dessa nova geração, como o da saúde mental, do mundo do trabalho, da violência territorial e da saúde sexual e reprodutiva. O foco das pesquisas de Marta, Kelly e Caroline, nesse sentido, conversam com o espírito de seu tempo. Suas vivências são traduzidas em agendas e, ainda, em atuação política: Marta com seu trabalho de propagação da dignidade menstrual no Amapá; Kelly com seu projeto de conservação e fortalecimento da sua comunidade quilombola, que sofre ataques de grileiros no Maranhão; e Caroline com sua investigação sobre os efeitos das batalhas de poesia na saúde mental de poetas e rappers periféricas da Bahia.

Além disso, as três pesquisadoras cumprem outro requisito, já que uma das exigências do projeto é que seus candidatos participem ou estejam envolvidos em algum coletivo, movimento, organização ou instituição ligada à juventude de espaços periféricos urbanos ou rurais. Caroline e Marta fazem parte do Levante Popular da Juventude, movimento social de alcance nacional, enquanto Kelly é militante e filiada ao Partido dos Trabalhadores (PT). 

“Acho que isso é essencial, pensar que a nossa prática política está diretamente relacionada com a melhoria da qualidade de vida das pessoas que fazem parte do nosso entorno, das pessoas da nossa localidade”, afirma Kelly Araújo, maranhense de 29 anos. Cada jovem investigador — dos 18 selecionados nacionalmente nessa segunda chamada e dos 10 localizados na cidade do Rio de Janeiro na primeira edição — tem uma trajetória única e, na perspectiva de Marta, o uso dessa lente singular e do fazer científico “para dar retorno e encontrar respostas às nossas angústias, questões e problemas sociais” é o movimento esperto dessa nova geração de pesquisadores. 

Mas nem esses jovens nem a Agenda Jovem creem que sozinhos é possível fazer ciência. Nada existe em vácuo e essa geração chega num universo histórico e temático repleto de contribuições e reflexões precedentes. No projeto Jovens Investigadores, essa herança é valorizada através das mentorias. Cada selecionado é ligado a um pesquisador da Fiocruz e desenvolve seu projeto com a orientação desses profissionais experientes da instituição. E desse desenho, as agendas da saúde — e de políticas públicas, em sentido mais amplo — são ressignificadas, renovadas e, até mesmo, sustentadas em outros contextos. “Tem uma pesquisadora, Regina Novaes, que fala assim: a juventude é um espelho agigantador da sociedade, porque, por ela, passa aquilo que a sociedade investe — ou não — no seu próprio desenvolvimento”, avalia André. 

O aprendizado mútuo assegura, então, um ciclo de legados e discussões que se retroalimenta. Os novos sujeitos da ciência, hoje, aprendem com seus mentores e já avistam novidades para os que virão em seguida. “O que a gente deixa?”, questiona Marta. “A gente deixa um caminho. Um caminho para ser trilhado, que vai ser mais aberto”, responde a paraense de 26 anos. Mas se comumente entendemos as juventudes como o futuro, Kelly pensa uma abordagem mais radical e ativa. “Eu acredito que nós não somos o futuro da ciência, nós não somos o futuro da universidade, nós não somos o futuro do país. Nós somos o presente”.

Tomada de consciência

“É esse olhar geracional”, diz Marta Rayane da Silva Gomes, paraense de 26 anos. “Nenhuma ciência é neutra e conseguimos visualizar isso pela escolha dos temas. Tudo que nos atravessa acaba sendo subsídio de reflexão, sendo esse impulso para a pesquisa”, completa.

Desses impulsos, dois foram cruciais para decidir seu tema de pesquisa: o relatório da Unicef [Fundo das Nações Unidas para a Infância] sobre a situação de precariedade menstrual no Brasil e o veto do ex-presidente Jair Bolsonaro à distribuição gratuita de absorventes para estudantes da rede pública de ensino, mulheres em situação de rua, em vulnerabilidade social extrema e em cumprimento de pena e medida socioeducativa [Radis 230]. Ambos aconteceram em 2021 e marcaram as discussões sobre direitos menstruais, autonomia corporal e equidade de gênero, tanto na mídia tradicional e nas redes sociais, quanto no coletivo de mulheres que Marta integra. “Diante disso, pensei: todo mundo fala de pobreza menstrual, mas relaciona isso, no máximo, à falta de saneamento básico e à estrutura patriarcal do Estado”, refletiu.

A partir daí, ela trouxe o assunto para mais perto: começou a se familiarizar com os números, os fatores de influência e os desafios que envolvem a pobreza menstrual. Especificamente, na região Norte do país, ou seja, dentro da sua realidade e do seu território de origem. “Diante do quadro nacional, a situação e a realidade do Norte eram as que mais se destacavam, onde mais mulheres viviam as mazelas da pobreza menstrual”, conta. 

Foi, então, que a jovem passou a refletir sobre “como a pobreza menstrual se materializa no cotidiano das mulheres da periferia da Amazônia urbana — porque, quando se fala em Amazônia, se pensa em florestas, rios e nos povos originários, mas pouco se debate sobre a Amazônia urbana, e sobre a periferia dessa Amazônia urbana”. Essa aproximação trouxe nuances e argumentos novos à sua pesquisa. Marta resolveu pensar a pobreza menstrual pela chave do racismo ambiental, conceito que, segundo ela, é o diferencial da sua pesquisa e a permitiu aprofundar questões a respeito da vivência do seu grupo focal: mulheres negras e periféricas do Amapá.

De acordo com dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) reunidos pelo Instituto Trata Brasil, a capital do Estado do Amapá, Macapá, é a cidade com o pior índice de saneamento básico dentre os 100 maiores municípios do país. São apenas 10,78% da população com acesso à coleta de esgoto e 37,56% com acesso à água potável. “E a gente mora na frente de uma das maiores bacias hidrográficas do planeta, que é o rio Amazonas, e 50% da população não tem acesso à água”, aponta Marta, que mora desde 2015 no Amapá e é formada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Amapá, a UNIFAP. 

“São contradições muito extremas” que, segundo a jovem, também se relacionam com uma questão econômica e falta de recursos. Isso porque os absorventes são taxados como produtos não essenciais, ou seja, paga-se muito mais caro por um item de higiene indispensável, o que pressiona o orçamento das famílias mais pobres e reduz seu poder de compra.

Diante de todo esse cenário injusto, Marta construiu um corpo de ação. Se “a pobreza menstrual foi o ponto de partida, o ponto de chegada é a dignidade menstrual”, afirma. “Ter direito à dignidade menstrual não é uma coisa que foi inventada ontem, nem saiu da cabeça do nada. É assegurado pela ONU. É um direito humano básico e o Estado é responsável em garanti-lo. Logo, quando não há esse debate na esfera pública, quando não há essa preocupação, cabe a tomada de consciência das pessoas, das mulheres, especificamente, e dos homens, também, para a delicadeza da questão”. 

Com sua pesquisa, Marta busca intervir na realidade, em uma espécie de “horizonte de emancipação”, como define. “Junto da pesquisa, desenvolvemos a contrapartida, que é essencial para que a gente não chegue no território, colha a informação e vá embora sem deixar nada”, explica.

Essa preocupação em retribuir ao território e às pessoas envolvidas na pesquisa é mais um fator que, alinhado à dimensão de intimidade com o tema, compõem o olhar da juventude. Marta construiu um trabalho de divulgação de informações através de uma página nas redes sociais, com o intuito de dar visibilidade ao tema da dignidade menstrual e esclarecer estigmas e preconceitos. 

“Não só o tabu existe, mas também uma estrutura de invisibilização. As pessoas não falam disso. E não só porque acham que ‘meu deus, menstruação, tenho medo, tenho nojo’, mas também é uma forma do Estado se ausentar da responsabilidade de garantir o direito à dignidade”, afirma. Foi com o perfil nas redes que a cientista social alcançou trabalhadoras da saúde e enfermeiras que trabalhavam nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) da região e contribuíram para as rodas de conversa sobre cuidado com a saúde menstrual.

Inclusive, esse foi outro trabalho de retorno: a criação de uma rede de mobilização social. Através de campanhas de doação de produtos menstruais, rodas de conversa, oficinas e atividades de solidariedade, foi montado um esforço conjunto de verdadeira propagação da dignidade menstrual. Com a ajuda de movimentos sociais, como o Levante Popular da Juventude, e de um terreiro de candomblé, onde ocorreram essas atividades, o grupo conseguiu alcançar mais pessoas. “Mulheres negras; mulheres mais velhas de 40 anos; mulheres que não menstruam mais, mas que tem filhas que menstruam; adolescentes; adultos; jovens. Abarcou uma diversidade muito interessante, apesar das dificuldades”, explica a jovem pesquisadora.

O ímpeto de Marta por despertar e mobilizar debates e encontros está inscrito na sua trajetória. Filha de pescador, ela nasceu e cresceu em uma comunidade tradicional localizada em área de reserva extrativista marinha chamada Campus de Cima. Seu pai, ela conta, foi uma de suas influências políticas. Ele era presidente da associação de pescadores da região, no município de Tracuateua no Estado do Pará. Na família, sua irmã também provocou a faísca militante e, ainda, o encontro com o Levante Popular da Juventude: as reuniões do grupo ocorriam na casa da irmã, que fazia pedagogia na UFPA. 

Na época, Marta era secundarista e apenas acompanhava com curiosidade as conversas e discussões do grupo. O histórico familiar e ainda o fato de ser a primeira geração da família a entrar numa universidade pública fizeram crescer na cientista social um compromisso em estar engajada. “Tem uma frase que diz: a cabeça pensa onde os pés pisam. Então, pensar a minha realidade e entender o meu compromisso histórico com a organização da classe trabalhadora foi o que me levou a me organizar”, descreve.

Virada da mesa do poder

“Eu já tinha terminado o mestrado e queria ver possibilidades. O projeto Jovens Investigadores foi uma alternativa para me redescobrir como pesquisadora, pensar outras maneiras de desenvolver a pesquisa científica, mas, principalmente, dar alguma contrapartida para a minha comunidade”, afirma Kelly dos Santos Aráujo. A maranhense de 29 anos é educadora popular, geógrafa de formação e mestre em História pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e quilombola da Comunidade Santo Antônio dos Pretos, na cidade de Grajaú no Maranhão. “Como eu estudo a vivência da minha comunidade, eu sentia que tinha, de certo modo, uma dívida com a juventude; de pensar como a juventude se compreende enquanto sujeito dentro de um contexto de conflito e como a saúde está diretamente relacionada com essas questões”, define.

Mas qual seria o perfil dessa juventude? “É uma juventude que passou por um processo muito específico”, explica. E esse processo está diretamente ligado à história de formação da comunidade: desde a compra da terra pela matriarca da comunidade, Maria Inácia, a fundação no período de pós-abolição e o êxodo de diversos moradores devido a conflitos com latifundiários da região na década de 1970 até a volta dos descendentes ao território e o início da luta pelo reconhecimento e pela titulação como comunidade remanescente de quilombo em 2005. 

Em 2020, os conflitos retornam, com ataques de grileiros e madeireiros contra a população. Sujeitos diferentes da década de 70, porém com uma natureza e dinâmica parecidas, avalia Kelly. No presente recente, a comunidade sofreu “não só com o conflito agrário, também estávamos lutando contra a pandemia de covid-19”. É esse o contexto vivido pela juventude da Comunidade Quilombola Santo Antônio dos Pretos.

Nas palavras de Kelly, “essa juventude é basicamente os filhos e netos daqueles que moraram no território na década de 70, que tiveram que sair. Então, é uma juventude que não foi criada dentro do território em sua primeira infância, mas que com sete ou oito anos teve que ir com seus pais para a comunidade. A partir disso, eles ressignificaram uma nova identidade”. 

O recorte temático de Kelly ultrapassa uma análise das disputas diretas que atingem a integridade e a saúde física desses jovens de 18 a 29 anos e alcança uma discussão sobre identidade. “São meninos e meninas que passam a compreender essa nova dinâmica de se entender como sujeito quilombola e de vivenciar um contexto de conflito”, afirma.

Segundo a pesquisadora, apesar dos conflitos atualmente se manifestarem de forma mais silenciosa que a um par de anos atrás, a comunidade vive sempre em alerta. Condição que prejudica o desenvolvimento mais adequado da pesquisa e a saúde física e mental da população quilombola que ali reside. É uma sensação de perigo constante. “Sempre tem uma preocupação quando vão pessoas desconhecidas ou quando passa algum helicóptero ou avião por cima da comunidade sobrevoando”, diz. 

Dificuldades mais práticas, como o isolamento territorial do quilombo Santo Antônio, também obrigam que se pense em estratégias mitigadoras, como o uso de aplicativos de mensagem para coletar informações e dos espaços comuns e sociais da comunidade para realizar conversas informais sobre questões identitárias e de interesse do grupo. “Quando as pessoas da comunidade precisam de atendimento médico, elas têm que se deslocar ou para a sede que fica em Grajaú, ou para povoados vizinhos. Mas, sem transporte, como são feitos esses atendimentos?”, reflete Kelly. “Como é que eles conseguem ter acesso, por exemplo, ao SUS, tendo o conflito e a questão do transporte como elementos que exigem atenção?”

As respostas para essas perguntas, de certa forma, se constroem com a investigação e a atuação de Kelly em seu território. Junto ao aprimoramento da infraestrutura e da capilaridade do SUS, Kelly menciona como primordial o fortalecimento das práticas de saúde fora do espaço formal dos hospitais, dos postos de saúde e das UBS. Para ela, esse olhar para as relações cotidianas e do social é importante para a construção de “um novo modelo de sociedade ou uma nova perspectiva social”. “Lembro que as rezas, as benzeduras, os chás faziam muito parte da minha vida e do cotidiano da comunidade”, afirma. 

Do exemplo familiar, Kelly também herdou sua veia política. Ela narra que desde os 12 anos se reconhece como sujeito político e que acompanhava as reuniões da família na sala da casa da avó para debater os rumos e os interesses da comunidade. Foi por conta desse passado, afirma, que alcançou outros espaços importantes, como os centros e diretórios acadêmicos e as organizações partidárias. Mais recentemente, ela integrou o Grupo de Trabalho (GT) da Juventude na Transição para o novo governo Lula. 

Foi a única quilombola no GT, algo que considerou muito estratégico, uma vez que, com sua presença, pôde levar as diferentes perspectivas e identidades dos jovens brasileiros por conta da experiência que teve no projeto Jovens Investigadores. “Fico feliz em poder dizer que a minha indicação faz parte de uma coletividade, que envolve não apenas a minha comunidade, a minha família e o meu ciclo político partidário, mas também o perfil de uma juventude que ainda precisa ser vista”, comemora. “Estamos falando de um Estado [o Maranhão] que é o terceiro com mais comunidades quilombolas do Brasil. Segundo dados do IBGE [de 2019], nós somos, no Brasil, quase 6.000 localidades quilombolas. E ainda convivemos com a invisibilidade”, conclui.

Cultura das rimas

Da sua experiência como poeta, escritora e psicóloga, Caroline Anice Santos avistou um elo interessante entre o cuidado com a saúde mental e as rodas de Slam. A baiana de 28 anos explica que este é “um movimento de literatura periférica e marginal com fortes conexões com o hip-hop”. Os Slams são competições de poesia falada, que reúnem, em especial, a juventude periférica dos grandes centros. Esses jovens se juntam para apresentar suas composições, expressar sua mensagem e escutar o que os companheiros de batalha tem a dizer. 

De acordo com Caroline, o hip-hop tem esse ideal de coletividade e acolhimento no qual as vivências ganham outra dimensão. “Ele tem esse horizonte de transformação social, de expansão da consciência e de produção de conhecimento, mas o conhecimento produzido pelas ruas”, diz. “A rua é compreendida como uma escola. Então esses encontros, seja a roda de break, seja um show com um(a) DJ do movimento, criam relações e espaços de socialização”.

Para a psicóloga e poeta, as batalhas de Slam constroem redes de solidariedade, identificação e apoio, que “coloca a voz num lugar de expressão, que é terapêutico, no sentido do desabafo ou da elaboração de um problema, de um sentimento, de uma emoção, de poder botar para fora e de se identificar”. “Quando uma poeta, uma Slamer, por exemplo, recita uma poesia na batalha, não é como um show. Isso, inclusive, quem trouxe foi uma das entrevistadas: ‘Não é como um show que você chega no palco, fala e tem aquele que ouve e bate palma’. Toda interação, os olhares, as palmas, as lágrimas, os gritos fazem parte e atravessam a performance da poeta e ela vai se perceber neste lugar”, explica a jovem pesquisadora.

Daí nasce a conexão entre as possibilidades de cuidado psicológico e o hip-hop. O contorno das batalhas sugere uma participação e uma qualidade de escuta diferentes, verdadeiramente abertas e mais íntimas. E no caso do Slam das Minas, objeto de estudo específico de Caroline, o palco concentra a atuação e a experiência de mulheres negras da periferia que buscam esse lugar para manifestar sua voz e poesia.

“O Slam das Minas tem o protagonismo das mulheres. Ele teve um destaque muito forte no sentido de ser um espaço de organização das mulheres, de fortalecimento delas no movimento [hip-hop] e na ocupação das ruas”, comenta Caroline. E não faltam exemplos de como o Slam das Minas constrói sua rede de suporte: desde a mobilização do grupo para ajudar com a volta de alguma das mulheres que foi ao evento apenas com a passagem de ida; a possibilidade de ganhar um prêmio financeiro que ajude a desafogar as contas do mês de alguma poeta; até a receptividade de crianças, filhos e filhas, nas rodas. 

Caroline conheceu o Slam das Minas entre os anos de 2017 e 2018. Na época, segundo ela, as batalhas estavam crescendo em todo lugar, se organizando em vários estados e periferias. A primeira edição baiana teve como vencedora uma companheira de militância de Caroline, Amanda Rosa, que foi quem a incentivou a participar e se envolver com as rodas de poesia. Deixando de lado a vergonha e a timidez, as batalhas passaram, então, a fazer parte de sua vida de forma que a instigou a um olhar mais investigativo. “Tinha interesse de poder conectar minha trajetória e desenvolver um projeto que integrasse essas duas dimensões da minha vida: a relação com a cultura e com o movimento hip hop e minha trajetória, formação e atuação como psicóloga”, diz.

Como militante desde o seu ingresso na universidade, Caroline vê na sua pesquisa um “compromisso inegociável” e uma responsabilidade de contribuir com o movimento hip-hop — que levanta pautas como o combate ao genocídio da juventude e da população negras. “Acho que desenvolver um produto que faça sentido, que esteja disponível como parte da memória do movimento e permita contar essa história é um desdobramento importante”, comenta. 

Ela acrescenta que pretende, a partir da investigação, “desenvolver outras iniciativas que possam gerar renda para as mulheres, para o grupo e a comunidade envolvida”, a partir de editais de leis de incentivo à cultura, por exemplo. Algo que não torne seu projeto um fim em si mesmo, mas um ponto de encontro entre muitos sujeitos — “um tempero no caldeirão dessa organização da juventude, dessa expressão cultural e de linguagem”, completa. [2], [3]

[1] Imagem: Radis / Fiocruz

[2] Texto de Luíza Zauza

[3] Publicação original: https://radis.ensp.fiocruz.br/index.php/home/reportagem/ciencia-de-cara-jovem

Como citar este texto: Fiocruz. Ciência de cara jovem.  Texto de Luíza Zauza. Saense. https://saense.com.br/2023/04/ciencia-de-cara-jovem/. Publicado em 11 de abril (2023).

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