UnB
19/05/2023

Foto: Elza Fiuza / Agência Brasil

Kleber Aparecido da Silva

“Eu tenho um sonho.” Foi o que disse o líder dos direitos civis Martin Luther King Jr. há 50 anos, em 28 de agosto de 1963, no seu discurso mais famoso. Embora ele tenha dito essa frase cativante num discurso nos Estados Unidos, sua ideia de que um dia as pessoas estariam livres do preconceito racial tem sido adotada por pessoas de muitos países. Em 20 de novembro de 1963, três meses depois do discurso de King, mais de cem países assinaram a Declaração das Nações Unidas sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial. Outras iniciativas elogiáveis foram adotadas em todo o mundo nas décadas seguintes. Qual foi o resultado desses esforços?

Conforme informação obtida no site jw.org, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, disse em 21 de março de 2012: “Há muitos tratados e dispositivos, bem como um programa global, para impedir e erradicar o racismo, a discriminação racial, a xenofobia e a intolerância. Mas o racismo continua a causar sofrimento a milhões de pessoas em todo o mundo”. Que dizer de países que até certo ponto têm conseguido lidar com o racismo e outras formas de preconceito? Será que seus esforços conseguiram eliminar os sentimentos por trás do preconceito? Ou apenas impediram a demonstração desses sentimentos? E no Brasil que ações propositivas tem sido (re)desenhadas para o combate ao preconceito racial/étnico e também social?

Alguns acreditam que, na melhor das hipóteses, o que se conseguiu foi apenas diminuir a discriminação, mas não eliminar o preconceito. Por quê? Porque a discriminação é um ato que pode ser visto e punido por lei (tal como a Lei nº 9.459 1997), ao passo que o preconceito não, pois tem a ver com emoções e pensamentos profundos. Em síntese, é necessário “descolonizar” as mentes das pessoas. Portanto, qualquer tentativa de eliminar o preconceito não deve apenas impedir atos de discriminação. Deve ser capaz de mudar os pensamentos e sentimentos de alguém em relação às pessoas de outro grupo étnico, cultural e/ou linguístico. Será que isso é possível? Se for, como?

Segundo pesquisas feitas no bojo da Linguística Aplicada (Crítica), a mudança desta mentalidade só pode ser feita por meio de um processo educativo crítico/decolonial em que o indivíduo compreenda as suas identidades múltiplas e fragmentadas e conceba o outro como um ser necessário para a sua (re)construção identitária como cidadão planetário, que sabe dos direitos e exerce os seus deveres, entre eles o de respeitar o outro/o próximo. Pois conforme já dizia o grande líder sul-africano Nelson Mandela: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar.”

Sendo assim, é papel da família, da escola e da faculdade/universidade (re)pensar em mecanismos práticos para ensinar as pessoas o que Catherine Walsh já pontuava: i) aprender a desaprender para reaprender; ii) reaprender pluriversalmente a partir de outras bases; iii) desnatutralizar e desequilibrar singularidades e universalidades de pensamento; iv) desaprender verdades; construtos de mentalidade colonial; v) desenvolver o pensamento crítico; vi) compreender que desaprendizagens fomentam reaprendizagens quanto a nossas formas de pensar, saber, sentir e estar no mundo.

Ao fazermos estaremos, no nível praxiológico, criando mecanismos para “lutar pela igualdade sempre que as diferenças nos discriminem; lutar pelas diferenças sempre que a igualdade nos descaracterize” (Boaventura de Sousa Santos). A meu ver, nós precisamos (re)pensar criticamente maneiras práticas de implementar práticas antirracistas dentro de nossas próprias casas e não apenas na escola ou universidade. Pois conforme já dizia o geógrafo negro Milton Santos: “A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos, quando apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une”. Que desconstruamos a pedagogia da dor e consolidemos/desenvolvamos a pedagogia do amor. [1], [2]

[1] Kleber Aparecido da Silva é professor do Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas e do Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade de Brasília. Doutor em Estudos Linguísticos pela Unesp – São José do Rio Preto. Coordena o Grupo de Estudos Críticos e Avançados em Linguagens (GECAL) e é bolsista de produtividade em pesquisa pelo CNPq – 2A. kleberunicamp@yahoo.com.br | kleberaparecidodasilva@gmail.com

[2] Publicação original da UnB Notícias: https://www.noticias.unb.br///artigos-main/6533-a-pedagogia-do-amor-versus-a-pedagogia-da-dor

Como citar este texto:  UnB. A Pedagogia do Amor versus a Pedagogia da Dor. Texto de Kleber Aparecido da Silva. Saense. https://saense.com.br/2023/05/a-pedagogia-do-amor-versus-a-pedagogia-da-dor/. Publicado em 19 de maio (2023).

Notícias da UnB     Home