UFMG
05/06/2023

Tabagismo é comportamento de risco modificável para as doenças crônicas não transmissíveis. Foto: CCS / Faculdade de Medicina da UFMG

Estudo desenvolvido na Faculdade de Medicina da UFMG analisou as tendências temporais dos comportamentos de risco relacionados às doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) no Brasil e revelou estagnação alarmante entre 2009 e 2019. Também de acordo com o estudo, adultos jovens (de 18 a 34 anos) apresentam 21% mais comportamentos de risco para DCNT do que idosos com 60 anos ou mais.

“Essas doenças geralmente são associadas à idade, e é muito preocupante a presença delas em indivíduos mais jovens. É o que chamamos de perda prematura de anos de vida saudáveis”, pontua Thaís Cristina Marquezine Caldeira, doutorada em Saúde Pública. Ela publicou artigo sobre sua investigação em abril deste ano, na revista Preventing Chronic Disease, do Centers for Disease Control and Prevention (CDC), dos Estados Unidos.

As DCNT são condições de longa duração que resultam de combinação de fatores genéticos, fisiológicos, ambientais e comportamentais. Algumas das mais comuns são doenças cardiovasculares, diabetes, câncer, doenças respiratórias crônicas e obesidade. Grande parte da sua ocorrência está relacionada com o acúmulo de hábitos de risco, como consumo abusivo de álcool, consumo regular de bebidas açucaradas, tabagismo, má alimentação e falta de atividades físicas.

Associadas à morte prematura, as doenças crônicas não transmissíveis ainda podem gerar perda da qualidade de vida saudável e prejuízos econômicos substanciais em todo o mundo. E sobrecarregam o sistema de saúde.

Para a análise da tendência de comportamentos de risco, foram utilizados dados do Sistema de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) de 2009 a 2019, que processou entrevistas com 567.336 adultos. O Vigitel é um inquérito de base populacional feito anualmente por meio do telefone fixo, em todas as 26 capitais brasileiras e no Distrito Federal.

Fatores de risco
Orientada em seus estudos de mestrado pelo professor Rafael Claro, do Departamento de Nutrição da Escola de Enfermagem da UFMG, Thais Caldeira analisou cinco fatores comportamentais de risco principais para as DCNT: consumo infrequente de frutas e hortaliças (menos de cinco dias na semana), consumo regular de bebidas açucaradas (cinco ou mais dias na semana), tabagismo, consumo abusivo de álcool (quatro ou mais doses em ocasião única, nos últimos 30 dias, para mulheres, e cinco doses para homens) e prática de atividade física insuficiente (menos de 150 minutos por semana). Foram avaliadas também características sociodemográficas, como sexo, faixa etária e escolaridade.

De acordo com a pesquisa, os comportamentos de risco que mais contribuíram para a incidência de mais de uma DCNT foram o tabagismo, o consumo de bebidas açucaradas e o consumo abusivo de álcool. Os pesquisadores observaram que a coexistência dos comportamentos inadequados é maior entre os homens do que entre as mulheres e está inversamente associada a faixa etária e anos de escolaridade – ou seja, quanto maior a idade e a escolaridade, menor a incidência. O artigo estimou que mais de 40% da população mantém pelo menos dois desses comportamentos simultaneamente.

“Encontramos uma média de dois comportamentos de risco por pessoa. O problema é que, quando se acumula outros comportamentos de risco, como observado no estudo, eleva-se o risco de desenvolver DCNT ou piorar o prognóstico das doenças que o indivíduo já tem”, afirma a pesquisadora. Durante o período do estudo (2009-2019), ficou demonstrada diminuição (de 4% a 5% ao ano) na coexistência de comportamentos de risco para DCNT, com estabilização a partir de 2015.

Tratamento e prevenção
De acordo com o Ministério da Saúde, quase 60 milhões de brasileiros têm pelo menos uma doença crônica não transmissível. Problemas como a diabetes, doenças do coração, cânceres, doenças respiratórias crônicas e obesidade provocam em torno de 72% dos óbitos no Brasil.

O quadro é grave, por isso a prevenção e o tratamento adequado são de extrema importância. Os cuidados podem ser tomados com acompanhamento de profissionais de saúde, uso de medicamentos (quando necessário) e mudanças de hábitos. O tratamento depende do tipo da doença crônica: geralmente, o paciente precisa tomar remédios pelo resto da vida.

“Uma das formas de prevenção está associada à diminuição dos principais fatores de risco comportamentais. A prática de múltiplos comportamentos de risco representa um desafio para o sistema de saúde, uma vez que quatro DCNT (doença cardiovascular, câncer, diabetes e doenças respiratórias) são responsáveis por grande carga de doenças no país, e elas estão associadas a quatro comportamentos modificáveis: alimentação não saudável, inatividade física, consumo excessivo de bebida alcoólica e tabagismo”, explica Thaís.

Para a pesquisadora, é crucial implementar políticas públicas abrangentes e programas de educação em saúde. “A conscientização da população e o acesso aos serviços de prevenção e tratamento adequados também são fundamentais para reverter o quadro e melhorar a saúde da população”, ela enfatiza.

PesquisaTendência temporal na coexistência de comportamentos de risco para doenças não transmissíveis no Brasil: 2009-2019
Autora principal: Thaís Marquezine Caldeira
Orientador: Rafael Moreira Claro
Programa: Pós-graduação em Saúde Pública
Publicaçãoabril de 2023, na Preventing Chronic Disease

(Centro de Comunicação da Faculdade de Medicina) [1]

[1] Publicação original: https://ufmg.br/comunicacao/noticias/comportamento-de-risco-para-doencas-cronicas-nao-transmissiveis-e-21-maior-em-jovens-que-em-idosos

Como citar este texto: UFMG. Comportamento de risco para doenças crônicas não transmissíveis é 21% maior em jovens que em idosos. Saense. https://saense.com.br/2023/06/comportamento-de-risco-para-doencas-cronicas-nao-transmissiveis-e-21-maior-em-jovens-que-em-idosos/. Publicado em 05 de junho (2023).

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