UFRGS
28/07/2023

Foto: Lucas Antonio Morates

O aparecimento de carcaças de animais marinhos nas praias pode causar estranhamento e repulsa, mas, em grande parte das vezes, é um processo natural que integra o ecossistema e o ciclo vital das espécies. Os restos mortais, que servem de alimento para diversas espécies de vertebrados e invertebrados, são, há mais de 20 anos, parte do trabalho e da pesquisa do biólogo Maurício Tavares, do Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos da UFRGS (Ceclimar).

Entre 2017 e 2021, Maurício desenvolveu sua tese de doutorado no Programa de Pós-graduação em Biologia Animal da UFRGS (PPGBAN), orientado pelo professor Márcio Borges-Martins. O estudo aborda tetrápodes marinhos — aves, tartarugas e mamíferos — e possui três eixos principais: a deriva, que consiste no trajeto que as carcaças fazem a partir da morte do animal no mar; o encalhe, que ocorre quando esses materiais chegam à costa; e a persistência, ou seja, o tempo que as carcaças levam para se decompor na beira da praia.

Para coletar dados sobre a deriva, foi realizado um experimento inovador ao longo de 430 quilômetros da costa da região Sul do Brasil, em 2019. Com a utilização de rastreadores veiculares e ciência cidadã, o pesquisador desenvolveu um método de pesquisa de baixo custo, que resultou na publicação de um artigo, nesta quarta-feira (26), na revista Methods in Ecology and Evolution, um dos periódicos da British Ecological Society. Além de servir de modelo para futuras pesquisas, os resultados do estudo com as carcaças são importantes no desenvolvimento de medidas de proteção e conservação desses animais.

Litoral gaúcho: um ponto estratégico na pesquisa da biodiversidade

As praias do Rio Grande do Sul são fundamentais para o ciclo de vida de diversas espécies. Entre todo o Atlântico Sul Ocidental, o litoral do estado possui o maior registro de espécies de cetáceos — grupo composto por baleias, golfinhos e botos. Outro exemplo de importância neste contexto é a Lagoa do Peixe, nos municípios de Mostardas e Tavares, que recebe cerca de 270 espécies de aves, das quais 35 são migratórias.

A pesquisa de Maurício ressalta como as carcaças estão inseridas naquele ecossistema e participam de um processo essencial de reciclagem de nutrientes nesse ambiente. Os animais mortos servem de alimento não só para vertebrados como os urubus e gaviões, mas também para pequenos invertebrados, que posteriormente são fonte de alimento para outras espécies, como o maçarico-de-papo-vermelho (Calidris canutus). Ameaçada de extinção, essa ave migra do Canadá e do norte dos Estados Unidos até o Rio Grande do Sul em busca de alimento no litoral gaúcho. 

“Se não conservarmos essa beira de praia e esse material que se deposita nela de uma maneira adequada, podemos estar indiretamente atrapalhando uma espécie migratória ameaçada de extinção”

Maurício Tavares
Carcaças e garrafas à deriva

Uma das espécies que mais requer atenção dos pesquisadores da fauna marinha do Rio Grande do Sul é a toninha (Pontoporia blainvillei), pequeno golfinho que está ameaçado de extinção, principalmente devido à captura acidental em redes de pesca. Atuando no Ceclimar desde 2008, Maurício começou a realizar monitoramentos semanais na costa gaúcha em 2012. O pesquisador avaliou os padrões de mortalidade dessa e de outras espécies de tetrápodes marinhos, desenvolvendo uma série de questionamentos que resultaram em sua tese de doutorado.

O experimento de deriva foi realizado em 2019 e foi repetido nas quatro estações do ano. Carcaças de toninhas, tartarugas e aves marinhas foram soltas no mar em diferentes distâncias da costa, com o objetivo de detectar os padrões de deslocamento e de encalhe dessas espécies. Junto aos animais, garrafas de vidro foram reaproveitadas e lançadas no oceano como derivadores passivos — isto é, objetos que servem para simular e entender o movimento das carcaças e os padrões de circulação da água.

O projeto apostou na ciência cidadã: todas as carcaças e garrafas possuíam identificação e um número de Whatsapp para que, quando fossem encontradas na costa, houvesse o registro exato do local e do dia do encalhe na praia. Segundo Maurício, a ideia funcionou bem. “Como foi no verão o primeiro experimento, muita gente conheceu o trabalho. Houve um pescador na região de Mostardas que encontrou materiais em todas as estações do ano. As pessoas achavam e já notificavam, e isso foi bem importante”, avalia o pesquisador.

O maior diferencial do estudo, no entanto, foi a utilização de rastreadores veiculares nas carcaças de toninhas e tartarugas. Maurício explica que essa técnica é muito importante devido à economia e praticidade. “Utilizar um rastreador para animais vivos é muito mais caro, porque ele tem sensores de temperatura e profundidade, por exemplo. Conseguimos improvisar um rastreador que era bem mais econômico”, aponta. O biólogo reforça que, com a disponibilização dessa técnica em uma revista de alto impacto, outros pesquisadores poderão utilizar a metodologia em seus estudos.

“Os americanos e europeus normalmente têm muito mais verba para pesquisa, então eles conseguem usar esses rastreadores mais caros. Estamos em um lugar muito privilegiado e por fazer esses monitoramentos semanais temos acesso a bastante material. O que nos falta, às vezes, é recurso.”

Maurício Tavares

O biólogo destaca que os próximos passos da pesquisa serão análises mais detalhadas a partir dos padrões de deriva detectados. Segundo ele, há muitas variáveis a se considerar: profundidade em que o animal morre, estação do ano, vento e a distância da costa, por exemplo. O entendimento disso, conforme Maurício, é fundamental para estudos de captura acidental, como o caso das toninhas, assim ajudando em medidas de conservação desses animais. [1], [2]

[1] Texto de Oberdan Rodrigo Schumann.

[2] Publicação original: https://www.ufrgs.br/ciencia/pesquisa-investiga-o-movimento-das-carcacas-de-animais-marinhos-e-sua-importancia-no-ecossistema-costeiro/.

Como citar esta notícia: UFRGS. Pesquisa investiga o movimento das carcaças de animais marinhos e sua importância no ecossistema costeiro. Texto de Oberdan Rodrigo Schumann. Saense. https://saense.com.br/2023/07/pesquisa-investiga-o-movimento-das-carcacas-de-animais-marinhos-e-sua-importancia-no-ecossistema-costeiro/. Publicado em 28 de julho (2023).

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