Jornal da USP
26/09/2023

Pesquisadores estudaram a hesitação vacinal de gestantes e puérperas e relacionaram o menor número de consultas pré-natal e desinformação com as menores taxas de imunização – Fotomontagem: Jornal da USP – Imagens: Nakaridore/Freepik e Erasmo Salomão/Ministério da Saúde

Antes mesmo da pandemia de covid-19 e da polarização política em torno da vacina, os níveis de imunização no Brasil já vinham diminuindo. Em 2019, vacinas contra tuberculose, rotavírus e paralisia infantil, por exemplo, já estavam abaixo da porcentagem mínima recomendada, segundo o DataSUS. Esse fenômeno é conhecido como hesitação vacinal: quando a população reluta em tomar os imunizantes, mesmo quando há disponibilidade no sistema de saúde. A hesitação foi estudada entre gestantes e puérperas (mães com recém-nascidos) em um estudo da Faculdade de Medicina (FMUSP), que relacionou um menor número de consultas pré-natal e desinformação com as menores taxas de imunização nestes grupos.

A tríplice bacteriana acelular – vacina contra tétano, difteria e coqueluche (dTpa) – e a vacina contra influenza, objetos de estudo da pesquisa, são essenciais para, além de proteger a mãe, proteger o bebê até o início do calendário de imunização, aos 2 meses de idade. “A mortalidade por coqueluche, por exemplo, diminui ao vacinar gestantes, porque a mãe produz anticorpos que passam via placenta para o feto”, explica Raquel Quiles, médica pediatra e primeira autora do artigo publicado na revista Vaccine X.

Os dados foram coletados entre 2017 e 2018 no Hospital Universitário (HU) da USP, com um questionário sobre dados demográficos, número de consultas pré-natal, conhecimento das mulheres sobre sua situação vacinal e indicação de obstetras para os imunizantes, conhecimento geral sobre a utilidade da vacinação durante a gravidez, entre outros dados. Ao todo, 207 mulheres foram entrevistadas e tiveram seus cartões de vacinação checados.

Nesse grupo, 95,2% das entrevistadas eram vacinadas contra influenza — porcentagem dentro do número recomendado pelo Ministério da Saúde — e 85,5%, vacinadas com dTpa, número abaixo dos 100% recomendados de cobertura vacinal, com uma diferença significativa em comparação com a influenza. No total, 84,5% das participantes da pesquisa receberam ambos os imunizantes.

Observou-se que o conhecimento sobre os benefícios dos imunizantes para o recém-nascido e sobre a segurança dos imunizantes estava associado de forma positiva com os níveis de vacinação nas mulheres. Outro fator associado à vacinação na gravidez é a indicação médica.

“Aquela mãe que tinha maior número de consultas pré-natais, sete ou mais consultas, tinha mais vacinação. Ou seja, as que tinham mais informação, conhecimento sobre a vacina ou sobre sua situação vacinal, tinham mais chance de serem vacinadas para dTpa. A recomendação médica era outro fator que estava associado à maior chance de receber a vacina”

A hesitação vacinal refletida nas taxas de imunização dessas mulheres estava relacionada à falta de informação sobre a importância da vacinação. Foi observado apenas 0,5% de recusa à vacina da gripe, enquanto as demais mulheres não vacinadas demonstraram interesse na imunização após a participação no estudo.

Raquel Quiles faz uma ressalva sobre a amostra do estudo, que pode ter enviesado os resultados para índices melhores que a média geral das gestantes no País. “As gestantes que atendemos eram da região do Butantã [bairro de São Paulo onde fica o campus universitário] e estavam tendo seus filhos na USP. Ou seja, é uma amostra ‘viciada’ no sentido de que elas recebiam uma assistência à saúde e passaram por consultas pré-natais, de forma mais próxima à situação ideal.”

Em sua dissertação de mestrado, trabalho do qual o artigo é derivado, a pesquisadora também fez o levantamento da vacinação de 73 profissionais da saúde que lidavam diretamente com os recém-nascidos do HU. A cobertura estava abaixo do recomendado para os dois imunizantes avaliados, 80,6% para influenza e 52,2% para dTpa.

Apesar das taxas baixas, o estudo não encontrou nenhum tipo de hesitação vacinal entre os profissionais. “Alguns apenas tinham tomado a dt [que não cobre a coqueluche] e não sabiam que podiam tomar a dTpa. A falta de conhecimento também entre os profissionais da saúde foi o fator decisivo para ter uma cobertura menor da dTpa em relação à influenza”, diz a pesquisadora.

“Os nossos dados mostraram que, em condições ideais de informação, as mulheres se vacinam. Se elas souberem que é segura e que vai proteger o bebê, se ela receber indicação e prescrição médica, a imunização acontece.”
Raquel Quiles

Hesitação vacinal

O Programa Nacional de Imunização (PNI) possui um calendário público de vacinação que é exemplo no mundo inteiro, e que, desde 1973, erradicou doenças como varíola, poliomielite (em 1994) e rubéola (em 2015), por exemplo.

“No final dos anos 90 e começo dos anos 2000, o PNI atinge a sua plenitude: ele erradicou doenças e diminuiu astronomicamente a incidência de muitas outras. O calendário começou a ficar mais complexo e robusto, mas, por volta de 2013, 2014 e 2015, já não conseguia atingir a mesma taxa de cobertura vacinal que antes”, conta Alfredo Gilio, docente do Departamento de Pediatria da FMUSP. Um dos exemplos mais emblemáticos da queda dos índices de vacinação foi a volta do sarampo, que em 2016 tinha sido declarado eliminado das Américas, mas que voltou em 2018 no Brasil.

Para o Jornal da USP, Alfredo Gilio explicou que a chamada hesitação vacinal é um fenômeno muito complexo. Se, no Brasil, a vacina é gratuita e disponível na rede pública de saúde, por que as pessoas não se vacinam? Os três C’s tentam explicar o porquê.

A primeira palavra é confiança: é necessário que a população confie na segurança e efetividade dos imunizantes, nos sistemas de saúde e nas autoridades sanitárias. Notícias falsas, discursos antivacina e ataques a instituições põem em xeque a confiança da população.

complacência — o segundo C — é o paradoxo criado pela vacina. “A vacina é vítima do seu próprio sucesso. O que é isso? Como ela fez a doença praticamente desaparecer, a população não percebe isso. As mães hoje nunca viram a coqueluche e não têm ideia do risco. Pelo sucesso dos imunizantes, a doença desapareceu. Se você não percebe o risco, você sobrevaloriza o evento adverso.”

Por fim, a conveniência, que se relaciona com a disponibilidade e acessibilidade aos imunizantes. A complexidade do calendário de vacinação e as muitas idas ao serviço de saúde em horários restritos atrapalham os pais que trabalham ou as crianças que ficam o dia inteiro na escola, por exemplo. “Além disso, no Brasil, você tem questões de logística, por causa do tamanho do País. Há questões complexas de como levar a vacina para alguns lugares remotos. É uma mistura disso tudo que faz com que as pessoas tenham uma certa hesitação.”

Esse é um momento de inflexão em que todo mundo precisa trabalhar. Nós precisamos recuperar as taxas adequadas de vacinação e o Brasil tem condição de fazer isso, afinal ele é um exemplo com o PNI, considerado o melhor do mundo”
Alfredo Gilio

Para reverter esse cenário, várias medidas são necessárias. Os pesquisadores citam o papel da mídia profissional em combater notícias falsas e divulgar informações sobre a importância dos imunizantes, perigo das doenças e campanhas de vacinação.

Os médicos têm um papel essencial nessa recuperação, principalmente os pediatras, segundo Alfredo Gilio, devido ao contato constante com crianças que precisam seguir o calendário vacinal. “É preciso ter um diálogo franco e assertivo com aquela família que está com alguma dúvida ou tem algum problema. Mesmo aqueles que hesitam na vacinação, vão conversar com o médico, com o pediatra ou com outro profissional da saúde, e esses devem estar preparados para responder a todos os questionamentos”, destaca. 

Questões operacionais dos sistemas de saúde também poderiam colaborar com a queda da hesitação, como a ampliação dos horários de atendimento dos postos de saúde, para atender à rotina das famílias, e levar a vacinação às escolas, como aconteceu com a vacina contra o HPV em 2014. E, nas escolas, não apenas levar os imunizantes, mas também levar o conhecimento sobre a importância da vacina, como elas funcionam e sobre a gravidade de doenças. “É um trabalho da sociedade inteira”, diz o professor.

Fenômeno não é de agora

“A hesitação vacinal não aconteceu por causa da pandemia ou da politização das vacinas, quero deixar isso claro. As taxas já vinham caindo desde antes”, ressalta o docente. No entanto, esses fatores tiveram impactos muito fortes na cobertura vacinal brasileira. Inclusive, ele acredita que se o estudo sobre a cobertura vacinal de dTpa e influenza de mulheres grávidas fosse feito novamente no cenário atual, as porcentagens encontradas seriam menores.

“Preocupadíssima, em 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) colocou a hesitação vacinal como uma das dez ameaças à saúde, no mesmo nível das alterações climáticas. É um fenômeno importante que não podemos subestimar. No Brasil, temos o potencial, sim, de reverter [a diminuição nos] níveis de vacinação: o nosso programa é ótimo e público, com muito potencial”, ressalta.

Mais informações: e-mail raquel.quiles@unicid.edu.br, com Raquel Quiles [1], [2]

[1] Texto de Júlia Custódio (Estagiária sob supervisão de Luiza Caires).

[2] Publicação original: https://jornal.usp.br/ciencias/desinformacao-e-menos-pre-natais-sao-ligados-a-menor-vacinacao-de-gestantes/.

Como citar este texto: Jornal da USP. Desconhecimento e menos pré-natais são ligados à menor vacinação de gestantes.  Texto de Júlia Custódio. Saense. https://saense.com.br/2023/09/desconhecimento-e-menos-pre-natais-sao-ligados-a-menor-vacinacao-de-gestantes/. Publicado em 26 de setembro (2023).

Notícias do Jornal da USP     Home