Agência FAPESP
28/09/2023

A bactéria mais comum no estudo foi a Klebsiella pneumoniae, que pode levar à pneumonia e à infecção de corrente sanguínea (imagem: NIAD/Wikimedia Commons)

Luciana Constantino | Agência FAPESP – A identificação rápida de pacientes contaminados por um tipo de “superbactéria” – as enterobactérias resistentes aos carbapenêmicos (CRE, na sigla em inglês) – e o isolamento precoce desses indivíduos reduzem a transmissão em áreas de internação de pronto-socorro (PS). No entanto, mantê-los por mais de dois dias na emergência compromete os esforços de contenção porque aumenta o risco de contaminação, a chamada colonização.

Esses são os principais achados de uma pesquisa feita por um grupo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP). Os resultados foram divulgados na revista Clinical Infectious Diseases.

As enterobactérias são um tipo de bactéria (gram-negativas) que geralmente causam infecções em ambientes de saúde – hospitais e pronto-socorros – e incluem cepas como a Escherichia coli, responsável por infecções urinárias e colite hemorrágica, e a Klebsiella pneumoniae, que pode levar à pneumonia e à infecção de corrente sanguínea. As CRE são consideradas ameaça à saúde pública pela dificuldade de tratamento. Os antibióticos carbapenêmicos geralmente são a última linha de defesa contra infecções provocadas por esses microrganismos.

“Fizemos uma intervenção em um pronto-socorro superlotado, ou seja, um hotspot para transmissão de bactérias resistentes. Vimos que essa intervenção teve um impacto na redução de bactérias multirresistentes dentro do PS e também no próprio hospital”, diz à Agência FAPESP o médico infectologista Matias Chiarastelli Salomão, primeiro autor do artigo e integrante da Subcomissão de Controle de Infecção Hospitalar do Instituto Central do Hospital das Clínicas (HC) da FM-USP.

Estudos anteriores realizados no Departamento de Emergência já haviam demonstrado que 6,8% dos pacientes admitidos são colonizados por CRE, com uma taxa de contaminação de 18% durante a internação no local.

Relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), publicado em 2022, apontou que a cada 100 pacientes internados em hospitais para cuidados intensivos, sete – em países de alta renda – e 15 – em países de baixa e média renda – adquirem ao menos uma infecção associada à atenção à saúde durante a internação. Em média, um a cada dez pacientes afetados morrerá por este motivo.

De acordo com Salomão, um dos focos do trabalho foi tentar entender e buscar alternativas para impedir que infecções no pronto-socorro se espalhassem para outras alas do hospital. “A intervenção que usamos é pragmática e pode ser aplicada em outros locais. Sobre o resultado relacionado à internação na emergência por mais de dois dias comprometer os esforços de contenção, acreditamos que seja uma questão de estrutura do PS, que não é adaptada para ter pacientes de longo prazo. Ou seja, tem macas mais próximas, pontos de higiene de mãos mais distantes, entre outros”, complementa.

Passo a passo

A pesquisa foi conduzida no pronto-socorro do Hospital das Clínicas da USP, que tem 800 leitos. Muitas vezes, porém, o local está superlotado, abrigando o dobro de pacientes internados, com alguns permanecendo por mais de 11 dias.

A FAPESP apoiou o estudo por meio de um Auxílio à Pesquisa concedido ao médico Icaro Boszczowski, coautor do artigo.

O trabalho foi dividido em duas fases – uma realizada de 3 a 28 de fevereiro de 2020 (período de linha de base), antes de o primeiro caso de COVID-19 chegar ao HC, e a outra entre 14 de setembro e 1º de outubro do mesmo ano (período de intervenção). O hospital ficou totalmente dedicado a casos de COVID entre 1º de abril e 31 de agosto de 2020, tendo sido reaberto gradualmente a outros tipos de internação depois desta data.

A fase 1 consistiu em um período inicial para determinar a prevalência e a incidência de pacientes colonizados por CRE admitidos no pronto-socorro. Não houve intervenção nessa etapa e os pacientes internados por mais de 24 horas ficaram em macas e camas distribuídas próximas umas das outras, enquanto aguardavam transferência.

Na fase 2 (período de intervenção), indivíduos internados no PS passaram por triagem para CRE nas primeiras 24 horas. Os positivos para superbactérias eram colocados em isolamento até a alta – 90% dos isolados estavam infectados por Klebsiella pneumoniae. Em ambas as fases, os procedimentos de limpeza e desinfecção foram semelhantes e houve monitoramento de antimicrobianos.

Resultado: a colonização na admissão foi de 3,4% por cultura e teste molecular. Já as taxas de contaminação por superbactéria durante a permanência no PS caíram de 4,6% para 1% durante a intervenção. O tempo de permanência maior do que dois dias foi o fator de risco para aquisição de CRE.

“A ideia da pesquisa começou no próprio hospital, onde desde 2014 vem sendo realizado um protocolo de rastreio tanto semanal como admissional nas Unidades de Terapia Intensiva [UTIs]. Isso fez com que as taxas de colonização secundária caíssem de maneira importante. Mas um outro trabalho detectou que continuava havendo uma entrada de superbactérias por meio do pronto-socorro”, conta Salomão, que começou a estudar o tema em seu doutorado.

Desse período, resultaram outros dois artigos, sendo o último publicado em 2020 na revista Emerging Infectious Disease.

O artigo Transmission of Carbapenem-Resistant Enterobacterales in an Overcrowded Emergency Department: Controlling the Spread to the Hospital pode ser lido em: https://academic.oup.com/cid/article/77/Supplement_1/S46/7219531?login=false.

Como citar este texto: Agência FAPESP. Estudo da USP aponta estratégias que ajudam a conter a disseminação de ‘superbactérias’ em hospitais.  Texto de Luciana Constantino. Saense. https://saense.com.br/2023/09/estudo-da-usp-aponta-estrategias-que-ajudam-a-conter-a-disseminacao-de-superbacterias-em-hospitais/. Publicado em 28 de setembro (2023).

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