Jornal da USP
01/09/2023

Cada feira tem uma particularidade e uma diversidade de preços e produtos distintas – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Presentes formalmente no Brasil desde 1914, existem mais de 942 feiras livres na cidade de São Paulo, que geram cerca de 36 mil vagas diretas e indiretas de empregos, segundo dados da Prefeitura. Uma pesquisa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP ajuda a explicar por que elas são consideradas um patrimônio de São Paulo. Na sua tese de doutorado, Milaine Aparecida Pichiteli compreendeu a importância da feira como espaço de resistência do campo na cidade. Ela também percebeu como a feira tem impactos positivos para várias pessoas, ao possibilitar melhorias no padrão de vida.

Tudo que a minha família tem vem da feira, meus pais trabalharam muito para dar isso aqui para a gente e agora eu trabalho e a feira me dá as coisas que tenho, eu gosto de trabalhar aqui, declarou um entrevistado na pesquisa.

Pandemia

Com a interferência da pandemia da covid-19 na pesquisa, Milaine Pichiteli verificou que nem todos os feirantes foram afetados economicamente de forma negativa. Parte deles relatou que a pandemia inclusive aumentou as vendas dos produtos – um dos motivos é que houve menos restrições do que em relação aos supermercados na cidade de São Paulo. Como as feiras ocorrem a céu aberto, as pessoas também tinham menos medo de frequentá-las. Na pandemia, muitas pessoas precisaram trabalhar em casa e cozinharem a própria comida e a feira era o local escolhido para comprar os produtos.

Mas, segundo ela, várias feiras em municípios do interior de São Paulo foram impactadas negativamente com a pandemia, por causa das restrições e das medidas de segurança determinadas pelas prefeituras.

Espaço de integração

A pesquisadora também percebeu que a quantidade de feiras não está diminuindo, mesmo com o aumento de locais que vendem frutas, verduras e outros alimentos. “A feira tem altos e baixos. Teve o momento de nascimento dela e teve um momento, principalmente na década de 1950 e 1960, quando o supermercado chega a São Paulo, que ela tem uma baixa”, afirma. Nesse momento, os jornais e o poder público viam o mercado como substituto da feira, o que não se concretizou.

Feiras vão morrer, 200 anos depois”

“Contra os supermercados só há um argumento: a tradição”

(Manchetes do jornal Estadão de novembro de 1968)

Para Milaine Pichiteli, as pessoas não deixaram de ir à feira por gostarem do ambiente, além de ela trazer alimentos mais frescos e ser um espaço de integração. “As feiras são um patrimônio territorial e a paisagem fica guardada na mente das pessoas.”

As feiras também apresentam um espaço diferente no meio da cidade de São Paulo, com seus prédios altos e casas. A geógrafa comenta que, ao possibilitar um contato mais próximo das pessoas com o campo, a paisagem da feira é um espaço de resistência mostrando a relevância do campo na cidade.

Ao longo do trabalho, além de pesquisar o histórico das feiras, Milaine Pichiteli visitou seis feiras na cidade de São Paulo e conversou com agentes do governo e feirantes para compreender a dinâmica de funcionamento delas.

Preconceitos 

Ainda hoje, pessoas criticam as feiras livres porque as consideram sujas ou com mau cheiro, principalmente quando há a oferta de peixes e carnes. “Muitas pessoas gostam de feira, mas não nas suas ruas”, comenta Milaine, que percebeu que a visão preconceituosa sobre as feiras é histórica. Nas décadas passadas, jornais propagavam notícias de como as feiras eram sujas e como estavam fadadas ao fim com o surgimento de supermercados e outras formas de vendas de frutas e verduras.

Atualmente, parte da população ainda carrega essa visão e também não vai à feira por não confiar nos produtos oferecidos. Mas, de acordo com a pesquisadora, as feiras estão mais limpas e regulamentadas. Além das várias licenças que precisam ter, como de feirante e o Termo de Licenciamento de Uso, existem fiscais da prefeitura que verificam a regularidade das barracas. Muitos feirantes também se preocupam com a qualidade dos produtos e procuram oferecer aos seus clientes os mais frescos. No final, a prefeitura é responsável pela limpeza da rua.

“Sinto que [o imaginário de que a feira é suja e com produtos de baixa qualidade] pode ser deixado para trás. Hoje é mais regulamentado e a feira é tratada de maneira muito séria. Temos que lutar para acabar com esse preconceito”, afirma.

Diversidade

Milaine visitou feiras em vários perfis de bairros e percebeu que as diferenças entre elas vai além do preço dos produtos – que é maior em bairros elitizados. As feiras que ocorrem nesses locais também possuem maior variedade e disponibilidade de produtos exóticos e caros, como pitaya e salmão.

É possível perceber ainda diferenças entre o perfil das pessoas que frequentam as diferentes feiras. De acordo com a pesquisadora, em bairros nobres, existem mais pessoas com uniformes de empregada doméstica ou de babá e elas estão comprando muitas vezes para seus patrões. Nos outros bairros, as pessoas compram mais para consumo próprio ou de sua família.

O doutorado Paisagem cotidiana e patrimônio-territorial: um olhar sobre as Feiras Livres da cidade São Paulo, de Milaine Aparecida Pichiteli e orientado pelo professor Francisco Capuano Scarlato, foi defendido no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Geografia Humana da FFLCH, em junho de 2023.

Mais informações: e-mail milainepichiteli@usp.br, com Milaine Aparecida Pichiteli [1], [2]

[1] Texto de Thais Morimoto (Da Assessoria de Comunicação da FFLCH, editado por Valéria Dias).

[2] Publicação original: https://jornal.usp.br/ciencias/feira-livre-e-um-patrimonio-territorial-que-sobrevive-as-mudancas/.

Como citar este texto: Jornal da USP. Feira livre é um patrimônio territorial que sobrevive às mudanças.  Texto de Thais Morimoto. Saense. https://saense.com.br/2023/09/feira-livre-e-um-patrimonio-territorial-que-sobrevive-as-mudancas/. Publicado em 01 de setembro (2023).

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