UFRGS
11/09/2023

Foto: Marcelo Pires/JU

Soluções inovadoras no campo de revitalização de espaços públicos podem promover qualidade de vida e tornar a cidade mais eficiente, segura, atraente e desejável. O design, entendido como ferramenta para inovação no processo de revitalização de cidades, exige, porém, um conhecimento multidisciplinar, além de técnicas e métodos próprios, conexão entre os setores público e privado, e ainda uma relação dessa área com o planejamento urbano. Com isso em mente, uma tese de doutorado do Programa de Pós-graduação em Design da UFRGS apresentou modelo de utilização das ferramentas de design para o desenvolvimento de um projeto de revitalização urbana. 

Para chegar ao modelo, a autora do trabalho, Claudia Nichetti, realizou um levantamento bibliográfico e documental acerca da utilização do design nos processos de revitalização das cidades. Foi identificado, porém, que o que existe sobre esses processos vem do planejamento urbano ou da arquitetura, e não do design. 

Após isso, foi selecionado um estudo de caso com base no projeto Pacto Alegre, que é um projeto da Aliança para Inovação, uma articulação entre UFRGS, PUCRS, UNISINOS e a Prefeitura de Porto Alegre. Na análise, Claudia constatou que, nas poucas situações em que o design era inserido, isso ocorreu de maneira intuitiva e os conhecimentos da área foram utilizados de forma meramente estilística.

Assim, a pesquisadora realinhou o objetivo da tese para compreender a percepção de designers, arquitetos e profissionais de áreas afins sobre o papel do design e como eles abordavam isso, na prática, em projetos para revitalização de cidades. Nesse estudo, por meio de questionários e entrevistas semiestruturadas, foi identificado que, mesmo que o design possua ferramentas para solucionar problemas, ainda falta conexão entre a área e o urbanismo. A partir dessas percepções, Claudia construiu um modelo para a inserção do design no processo de revitalização de cidades.

Modelo orientado para inovação

Segundo a tese, para que aconteça essa inserção, são recomendadas macroações promovidas por políticas públicas. Justifica as recomendações a constatação obtida nas entrevistas com os atores de que os projetos, por tratarem de interferências nas cidades, seriam atravessados pelo poder público em vários níveis. Ainda, conforme o estudo, o poder público possui conhecimento dos problemas reais de design das cidades, mas não das ferramentas para solucioná-los.

Dessa forma, o design seria uma solução, mas haveria uma falta de conexão da área com o urbanismo. O desafio seria, portanto, cruzar essas áreas de conhecimento.

O modelo propõe uma aproximação do poder público com universidades, a valorização do design junto a gestores públicos e partes interessadas, e a inserção, nos currículos, dos cursos de Design, de disciplinas que abordem essa área e a de urbanismo como ferramentas para melhorar as cidades.

O primeiro passo do modelo é, justamente, desenvolver competências em urbanismo entre os profissionais de design. Isso se daria em cinco esferas: atitude, que seria uma maneira de pensar de forma integrativa, analítica e crítica; experiência, ao se adquirir familiaridade, projetando e implementando projetos; conhecimentos de design para resolução de problemas; capacidades relacionadas a criatividade, intuição e mentalidade para a resolução de problemas e, por fim, habilidades necessárias para executar uma ação ou processo e aplicação dos métodos de design.

Na segunda etapa do modelo, utilizam-se técnicas para entender os problemas de uma cidade, analisando a viabilidade e a funcionalidade da intervenção proposta, inserindo o usuário do ambiente nesse processo e avaliando as características físicas, culturais e comportamentais do lugar. A partir dessas informações, é possível decidir qual processo norteará a revitalização pela inovação: 1) investir na relação de design, identidade e território; 2) placemaking; 3) placebranding; ou 4) propostas smart city.

Claudia explica cada um desses possíveis processos. O primeiro deles, a relação estratégica entre os conceitos de design, identidade e território, fortalece a imagem de um local ao implementar projetos inovadores de produtos, processos e serviços. Segundo a pesquisa, o papel do design, nesse caso, seria o de gerir a complexidade da relação entre empresa – termo aplicado, nesse caso, à cidade –, mercado, produto, consumo e cultura. “É quando você está pensando em um lugar que está associado ao vinho e à cultura italiana e você se lembra da Serra Gaúcha”, exemplifica a pesquisadora.

O segundo, placemaking, seria um processo de planejamento, criação e gestão de espaços públicos com foco nas pessoas, isto é, dar significado a lugares que promovam a interação entre elas. Isso pode trazer melhorias na economia local, aumentar a qualidade de vida, desenvolver o potencial turístico e gerar empregos.

 placebranding trata tanto da mudança física dos lugares quanto de transformações orientadas em representações gráficas e de comunicação. Segundo o estudo, é o deslocamento de um conceito já existente na área de produtos e serviços, em que a cidade utiliza o branding, processo de gestão de marcas, levando-as a fazer parte da cultura e influenciar a vida das pessoas, aplicado como instrumento de construção da marca da cidade.

O último termo, smart city, se refere ao projeto de cidades eficientes, com uso consciente de recursos naturais e tecnológicos em benefício da sociedade. Mas, ainda assim, não há um consenso na literatura acerca do termo. A pesquisadora ressalta: “As pessoas entendem [smart city] sempre como sendo associada à tecnologia, e na verdade pode ser em vários aspectos”. Pode-se falar em smart city na área tanto de tecnologia quanto de recursos humanos, governança, ou combinando esses conceitos, por exemplo.

Claudia explica ainda que esse modelo surgiu da identificação de conhecimentos de design que já existiam, mas que eram pouco usados para resolver problemas reais relacionados à revitalização de cidades. “Tudo que tá proposto dentro da minha tese são coisas que eu fui compilando da literatura e fui cruzando com o que os profissionais usam na vida real”, reitera. “Meu modelo não é para designers trabalharem, necessariamente, é para qualquer pessoa que vá desenvolver um projeto”, completa. [1], [2]

[1] Texto de Thiago Rodrigues Müller.

[2] Publicação original: https://www.ufrgs.br/ciencia/pesquisa-propoe-modelo-para-inserir-o-design-no-processo-de-revitalizacao-de-cidades/.

Como citar esta notícia: UFRGS. Pesquisa propõe modelo para inserir o design no processo de revitalização de cidades. Texto de Thiago Rodrigues Müller. Saense. https://saense.com.br/2023/09/pesquisa-propoe-modelo-para-inserir-o-design-no-processo-de-revitalizacao-de-cidades/. Publicado em 11 de setembro (2023).

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