Jornal da USP
23/10/2023

Artefatos e sedimentos revelam como primeiros habitantes do Sudeste brasileiro se adaptaram à paisagem
Artefatos encontrados no sítio arqueológico Rincão I sobre imagem de amostra de solo do mesmo sítio vista no microscópio – Fotomontagem: Jornal da USP – Imagens: Cedidas pelo pesquisador

Pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), do Instituto de Geociências (IGc) da USP e de outras instituições estudaram as mudanças na relação entre as primeiras ocupações humanas da região Sudeste e as particularidades da paisagem geográfica. A pesquisa foi orientada a partir da análise de vestígios humanos e da datação de sedimentos obtidos por escavações realizadas no sítio arqueológico Rincão I, localizado no nordeste do Estado de São Paulo. Com base nessas informações, o estudo revelou importantes características sobre o modo de vida dessas populações e de que forma as alterações ambientais moldaram suas atividades há mais de 10 mil anos.

Para a realização do estudo, foram feitas duas escavações de 1 metro (m) de largura por 1 m de profundidade próximas a uma trincheira, anteriormente perfurada, de 20 metros de extensão e 2 metros de profundidade. Mais de 500 artefatos foram achados e caracterizados, entre eles, pontas de projéteis e artefatos plano-convexos, que apresentaram um considerável nível de complexidade em suas formas. Os objetos achados em camadas mais profundas eram predominantemente feitos de quartzo. Já os descobertos em camadas intermediárias e superficiais, de sílex e arenito. 

“Essa descoberta sugere que existiram dois níveis de ocupações diferentes: um em que as pessoas trabalhavam exclusivamente com quartzo, num tempo mais antigo, e outro em que elas trabalharam com materiais geológicos mais diversos – o que mostra uma mudança na relação com o ambiente”, explica Pedro Cheliz, doutorando em Geografia pela Unicamp, ao Jornal da USP. Dessa forma, a utilização de diferentes materiais mostra a adaptação das comunidades de caçadores-coletores às alterações geológicas que aconteceram na área do Rincão I ao longo dos anos.

Ambiente de transição

O sítio arqueológico fica situado no limite entre a extensa planície fluvial – formada pelo depósito de sedimentos trazidos pelo curso d’água – do rio Mogi-Guaçu e os terrenos de terra firme no entorno. De acordo com o pesquisador, mais de 10 mil anos atrás, essa área era mais seca do que o observado atualmente, com a presença de uma vegetação florestal mais densa. “Ele [o Rincão I] está em um ambiente de transição, situado justamente entre terras secas e alagadas pelas inundações dos rios. Um dos aspectos que o estudo trabalha é como esses grupos dos primórdios da ocupação escolheram essa paisagem estrategicamente, na qual eles podiam usar recursos dos dois ambientes ao mesmo tempo”, diz Cheliz. 

O Mogi-Guaçu estava localizado em uma área diferente da que se encontra hoje. Antes de deslocamentos laterais e verticais (era 5 m mais alto na época das primeiras ocupações em comparação com os dias atuais), o rio se encontrava a uma distância de 1,5 quilômetro (km) do sítio na época, o que proporcionava acesso a água potável, tornando o local propício para o assentamento humano. Além disso, ele também garantia fragmentos de quartzo e sílex em seu leito fluvial como fonte de matéria-prima, o que explica a presença de artefatos de tais materiais no Rincão I.

As peças de quartzo e sílex achadas são de tamanho pequeno e, portanto, puderam ser feitas a partir das pedras desses materiais encontradas na planície fluvial.  Já alguns dos utensílios trabalhados em arenito apresentaram dimensões maiores do que a média dos fragmentos de arenito encontrados em meio ao Mogi-Guaçu. Frente a isso, os pesquisadores concluíram que os habitantes do sítio provavelmente buscavam parte dessa matéria-prima em paredões e blocos de arenito situados a até 16 km de distância.

“Algo bastante interessante, inclusive, é que artefatos maiores similares aos encontrados no Rincão I foram registrados anteriormente em outros locais de São Paulo, mas quase sempre feitos a partir de sílex”, conta Cheliz. Os pesquisadores então puderam interpretar que essa maneira de trabalhar as rochas sofreu adaptações às particularidades ambientais da área do sítio: como os fragmentos de sílex disponíveis eram pequenos demais para se preparar objetos de proporções maiores, então

 os habitantes da área recorriam ao arenito como alternativa, se adaptando às possibilidades ofertadas pelo espaço físico onde viviam.

Luminescência Opticamente Estimulada

Para o processo de datação, ou seja, estipulação da idade do material encontrado, foi utilizado o método de Luminescência Opticamente Estimulada (OSL) – disponibilizado no Laboratório de Espectrometria Gama e Luminescência (LEGAL) do IGc. O processo consiste na exposição dos fragmentos recolhidos em campo à luz, em condições controladas, para realizar a medição da radiação liberada e assim, calcular sua idade.

O professor Paulo Giannini, do IGc, explica que o que é datado não é o artefato arqueológico, mas sim, os sedimentos nos quais ele foi achado. Dessa forma, o estudo analisou resíduos de quartzo presentes nas camadas – o mineral mais achado na maioria dos solos.

“Um grão desse mineral que está no sedimento fica recebendo radiação do material que está à sua volta em um raio de 30 cm. Isso porque existem minerais que contém tório, urânio e potássio: elementos químicos radioativos. Então, ele vai acumulando essa radiação ao longo do tempo”, diz Giannini. É com base na quantidade de radiação absorvida que é possível calcular há quanto tempo o elemento está soterrado, dividindo essa porção pela taxa de dose recebida em um determinado período de tempo, como, por exemplo, um mês.

O pesquisador alerta para os cuidados que devem ser tomados no processo de escavação, retirada e movimentação dos sedimentos até o laboratório. “Se o grão de quartzo ficar exposto ao vento ou ao sol, ele vai perder toda a carga de radiação que ele tinha guardado”, explica o professor. E é essa sensibilidade que a técnica de OSL utiliza para datação.

O método OSL foi escolhido por determinadas especificações que o carbono 14 (14C), o mais popular dentre os métodos de datação, não possui. O processo por carbono 14 exige a presença de material orgânico na amostra analisada, o que não é sempre encontrado nos sedimentos. Além disso, o alcance máximo do carbono 14, que data os materiais em até 20 mil anos, é menor do que o OSL, que, dependendo das características da amostra, alcança valores como 100 ou 200 mil anos. 

Descobertas

O estudo, além de fornecer novas informações sobre o estilo de vida das primeiras ocupações, surpreendeu ao trazer evidências de que a presença humana na região do Rincão I pode ter se iniciado antes do que se pensava. “A descoberta o coloca entre os poucos sítios do Estado de São Paulo que podem registrar ocupações mais antigas que 10 mil anos. Agora, são seis sítios nessa condição”, explica Giannini. 

A questão do povoamento do Sudeste brasileiro ainda suscita discussões em meio à comunidade científica. Em pesquisas anteriores feitas em sítios arqueológicos na região, as datações mais antigas relacionadas a vestígios da presença humana costumam situar-se no intervalo de 10 a 12,5 mil anos atrás. As datações realizadas no Laboratório de Espectrometria Gama e Luminescência, contudo, revelam que os artefatos mostram-se em meio a diferentes camadas de sedimentos formadas entre 10 e 20 mil anos atrás.

“Os artefatos encontrados são indiscutivelmente de origem humana, não existe dúvida. São objetos com tal nível de complexidade que não deixam dúvidas que houve participação humana em sua produção”, enfatiza Cheliz. Dessa forma, os pesquisadores afirmam que as idades da sedimentação encontradas têm elevada probabilidade de refletirem as idades da ocupação. Eles ainda destacam a necessidade de novos estudos para a confirmação dos indícios apresentados.

Os  resultados do estudo foram descritos no artigo Early anthropic occupation and geomorphological changes in South America: human–environment interactions and OSL data from the Rincão I site, southeastern Brazil, publicado na revista Journal of Quaternary Science. Ele apresenta apurações parciais da tese de doutorado de Pedro Cheliz, que dedica sua pesquisa à memória de Manuel Martins, professor de geografia e sociologia da rede pública de Araraquara – região na qual o estudo foi realizado. 

O estudo também teve contribuição de pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande (FURG),  Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e Fundação Araporã. A lista completa de autores está no artigo.

Mais informações: e-mail p063682@dac.unicamp.br, com Pedro Michelutti Cheliz; e-mail pcgianni@usp.br, com Paulo Cesar Fonseca Giannini. [1], [2]

[1] Texto de Camilla Almeida (Estagiária sob orientação de Fabiana Mariz e Luiza Caires).

[2] Publicação original: https://jornal.usp.br/ciencias/artefatos-e-sedimentos-revelam-como-primeiros-habitantes-do-sudeste-brasileiro-se-adaptaram-a-paisagem/.

Como citar este texto: Jornal da USP. Artefatos e sedimentos revelam como primeiros habitantes do Sudeste brasileiro se adaptaram à paisagem.  Texto de Camilla Almeida. Saense. https://saense.com.br/2023/10/artefatos-e-sedimentos-revelam-como-primeiros-habitantes-do-sudeste-brasileiro-se-adaptaram-a-paisagem/. Publicado em 23 de outubro (2023).

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