UFF
05/10/2023

Crédito da fotografia: Freepik

O Brasil é um país composto, em sua maioria, por negros e pardos. Mesmo com a inclusão do estudo da história e da cultura afro-brasileira no currículo através da lei 10.639, de 2003, a educação formal ainda reproduz o racismo. Além disso, a cultura digital impulsiona o preconceito relacionado à população negra, tornando necessária a reflexão sobre o racismo no contexto atual. Com a finalidade de intervir nesta realidade, a Universidade Federal Fluminense (UFF) desenvolveu a pesquisa “QUEM NOS OLHA PELOS ESPELHOS? A educação das relações étnico-raciais e o regime de visualidades” e o projeto “Negro na ciência”. O objetivo das ações é transformar as práticas pedagógicas, tanto na formação de professores quanto na sala de aula.  

As tecnologias produzem transformações nas sociedades. Isso se reflete no modo de produzir conhecimento, ensinar, aprender, escrever sobre o mundo e falar dele. No entanto, as tecnologias digitais causaram mudanças profundas em um curto espaço de tempo e produziram a “cultura digital”, que alterou a ideia de espaço-tempo, assim como também modificou a produção de conhecimento, a escrita, a forma de aprender, etc. 

Na cultura digital, a plasticidade neuronal, ou seja, a possibilidade de fazer conexões, ocorre de forma diferente nos jovens, visto que as mídias se interconectam: em um só texto é possível apresentar imagem, audiovisual, linguagem verbal, não verbal e outros recursos. Nesse sentido, podemos levantar um questionamento: como essas transformações da cultura digital também impactaram no racismo?

De acordo com o professor José Valter Pereira, docente da Faculdade de Educação da UFF e pesquisador das relações étnico-raciais na cultura digital, é importante refletir sobre o que acontece com o racismo quando entra em contato com a cultura digital. Em outras palavras, “em que medida o racismo mantém-se anterior à cultura digital? Como ele se transforma? Como cria outras possibilidades de provocar desigualdades e eliminação, tanto física quanto simbolicamente?”, destaca Pereira.

A educação das relações étnico-raciais e a política de visualidades

Toda imagem, antes de mostrar um referente, constitui-se como uma pedagogia do olhar. Logo, a imagem te ensina a ver o mundo, mas ela não é somente a imagem visual. Ela também pode ser a imagem que o indivíduo produz quando ouve uma história. Ou seja, ao escutar uma história, o ser humano é capaz de construir um imaginário. No entanto, a produção de certas imagens está alinhada a uma política de visualidades, quando as representações de determinados grupos ou mídias sociais são sempre muito parecidas. Essa forma de criar e ver imagens é uma maneira de configurar a possibilidade de o indivíduo ver o mundo.

Nesse sentido, a política de visualidades controla o que se pode ver, como deve ser visto e o tem que estar invisibilizado. “Se eu disser que passei na rua ontem e tinha um homem atrás do poste, isso possui uma conotação. Agora, se eu falar que era um homem negro, a conotação muda completamente. Resumindo: nós possuimos um repertório, que não sabemos de onde veio, de sempre ter medo por ser um homem negro”, ressalta Pereira.

Além disso, a política de visualidades também controla os lugares que podem ser ocupados pelos indivíduos. “Não basta mostrar de uma determinada forma, também precisa ser feita uma seleção dos lugares pelos quais essas pessoas podem circular. Por exemplo, uma babá só circula em determinado ambiente se estiver usando uniforme. O elevador social marca até hoje que algumas pessoas negras não podem entrar por ali”, comenta Pereira, destacando que essas ações marcam o não pertencimento dos indivíduos a estes lugares.  

O professor enfatiza que há uma educação que orienta o nosso olhar e o nosso imaginário para o preconceito. Tudo isso em razão da política de visualidades, que se encontra nas revistas, nas telenovelas e em outros lugares. Sendo assim, ela produz um imaginário e isso integra um projeto político. A política de visualidades encontra-se com a cultura digital quando observamos que o homem escreve o algoritmo. Logo, ele embute o racismo na máquina.

Por isso, de acordo com ele, a educação precisa ser ampliada no contexto da educação formal. Afinal, não é somente a escola que educa, mas também a família, o trabalho e, principalmente, as mídias digitais. “Sempre pensei na educação como uma faca de dois gumes: se você educa para o preconceito, você também pode educar para eliminar o preconceito. Por isso, minha atuação é na formação de professores”, revela.

No entanto, os professores precisam compreender as transformações que a sociedade está passando, em decorrência da cultura digital, e trabalhar na educação antirracista. “Hoje temos uma militância grande. Temos assegurado no currículo a necessidade da educação sobre as relações étnico-raciais. Também temos uma disputa mais incisiva na internet com influenciadores digitais negros. Além disso, há pesquisadores investigando temas que não tinham espaço na universidade. Nós ainda enfrentamos dificuldades, mas temos um caminho interessante. Vamos trabalhando e batalhando, desde que ampliemos essa discussão para todos”, finaliza.

Desconstruindo o estigma em sala de aula

O projeto de extensão “Negro na ciência”, idealizado pela professora Alessandra Rodrigues Rufino, docente da UFF e ex coordenadora do Curso de Licenciatura em Química da universidade, tem como objetivo apresentar aos estudantes de escolas públicas as contribuições de pessoas negras para a ciência. O intuito do projeto é levar a representatividade negra para as escolas e romper com a visão estigmatizada de que somente pessoas brancas fazem ciência.

“Em algum momento nos perguntamos: ‘o que me levou a seguir esta carreira?’ No meu caso, tenho químicos na família e tive um excelente professor de química. Também achava o máximo os grandes cientistas e suas descobertas. Não me faltaram referências. Mas pensei: ‘qual referência uma criança negra possui ao longo da vida?’ Quando olhamos ao redor, quais espaços os negros ocupam, em sua maioria? Observei os livros didáticos aprovados pelo PNLD dos últimos anos nas áreas de ciências. Muitas fotos de personalidades e cientistas brancos”, relata Alessandra.   

Inicialmente, o projeto elaborou e encaminhou um questionário para alunos de graduação, ex-alunos, professores universitários, de ensino médio e colegas de pós-graduação. O questionário continha algumas perguntas, como: “quantos professores negros você teve em cada ciclo da educação (fundamental, médio, graduação e pós-graduação)?” Os resultados evidenciaram a falta de representatividade e que a percepção de um indivíduo negro ocupando cargos que são, predominantemente, exercidos por pessoas brancas é pouco comum na concepção da sociedade. Além disso, os livros didáticos, os literários e os materiais culturais reforçam a disseminação do racismo e dos estereótipos relacionados à população negra.

Posteriormente, em outra etapa do projeto, foi realizada uma dinâmica com as turmas do ensino médio do CIEP 295, localizado na periferia de Volta Redonda. A partir de um levantamento sobre as personalidades negras que contribuíram para o desenvolvimento da ciência, os integrantes do projeto elaboraram uma apresentação com imagens de personagens. Cada aluno escolheu, marcando em um gabarito com quatro alternativas possíveis, qual profissão ele atribuía a cada personagem que aparecia na tela. Esta dinâmica recebeu a denominação “QUEM SOU EU?”.

De acordo com as suas concepções, os alunos associaram uma profissão a cada personalidade da imagem. “A maioria das respostas retrataram o racismo estrutural existente na nossa sociedade. Por exemplo, para um personagem branco (cozinheiro) foi atribuído o título de nobel de física, enquanto para uma cientista negra (que sintetizou o primeiro quimioterápico da história) foi atribuída a profissão de costureira”, comenta Alessandra.

No momento, Alessandra Rufino está em diálogo com diretores de escolas municipais e estaduais para verificar a possibilidade de aplicação do “QUEM SOU EU?” nas unidades de Volta Redonda. Além disso, encontra-se em processo de confecção uma apostila com  conteúdos de ciências da natureza. Este material destaca as temáticas que os professores podem relacionar com os feitos de profissionais e cientistas negros. “Nós esperamos mostrar para esses alunos, através da representatividade, que eles podem se ver na profissão que almejam. Também desejamos ter, nos próximos semestres, salas de aulas cheias de crianças buscando seus sonhos e seus lugares em um mundo tão pouco colorido”, finaliza. [1], [2]

[1] Texto de Karinee Klein

[2] Publicação original: https://www.uff.br/?q=noticias/28-09-2023/educacao-antirracista-repensar-o-ensino-e-renovar-praticas-pedagogicas-sao

Como citar esta notícia: UFF. Educação antirracista repensar o ensino e renovar as práticas pedagógicas são caminhos para eliminar o preconceito. Texto de Karinee Klein. Saense. https://saense.com.br/2023/10/educacao-antirracista-repensar-o-ensino-e-renovar-as-praticas-pedagogicas-sao-caminhos-para-eliminar-o-preconceito/. Publicado em 05 de outubro (2023).

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