UFRGS
05/10/2023

Foto: Freepik

“Eu quero fazer a diferença para essas crianças, e este é um desafio que me move para estudar, pesquisar, trabalhar e poder colocar em prática o que estamos encontrando”, afirma Andressa Costa Wiltgen. Com essa motivação, a fisioterapeuta trabalha com pesquisa na área da saúde infantil desde 2011, quando, ainda no início da graduação, ingressou no Núcleo de Estudos de Saúde da Criança e do Adolescente (NESCA) do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA)

Mestre e doutoranda no Programa de Pós-graduação em Saúde da Criança e do Adolescente da UFRGS (PPGSCA), Andressa realiza estudos sobre o período gestacional, que exige diversos cuidados essenciais para uma vida saudável da mãe e do bebê. Hábitos como o tabagismo e o consumo de álcool, por exemplo, permitem que substâncias nocivas cheguem ao embrião/feto, afetando o seu desenvolvimento. Por outro lado, a alimentação saudável por parte da gestante reduz a chance de complicações como a diabetes mellitus gestacional (DMG), que também é um cenário de risco para a saúde de ambos, mãe e bebê.

Ao passo que se sabe, durante a gestação, que esses fatores do ambiente externo podem influenciar a formação do sistema nervoso central — e, consequentemente, o desempenho da atividade motora da criança —, as investigações de Andressa têm como foco avaliar a influência dos diferentes ambientes intrauterinos no desenvolvimento motor infantil nos primeiros meses após o nascimento. Esse foi o tema de sua dissertação de mestrado, que originou um artigo publicado na Scientific Reports, da revista Nature, em junho deste ano.

O estudo concluiu que possíveis efeitos deletérios dos ambientes avaliados influenciam negativamente o desenvolvimento motor das crianças nos seis meses após o parto. “Além da questão da inserção na atividade física, [a importância do desenvolvimento motor] tem relação com o cognitivo que está se desenvolvendo. O desafio de, ao engatinhar, desviar de um obstáculo, por exemplo”, explica a pesquisadora.

“Sabendo de um ambiente intrauterino adverso, precisamos avaliar as crianças e, caso haja algum desvio, fazer a intervenção precoce com profissionais que possam avaliar essa questão do desenvolvimento motor”Andressa Costa Wiltgen

Seleção e coletas

Andressa estava no segundo semestre da graduação quando entrou para o NESCA, composto por pesquisadores da UFRGS e do HCPA. No Núcleo, ela passou a realizar coletas para o projeto “IVAPSA – Impacto das Variações do Ambiente Perinatal sobre a Saúde do Recém-Nascido nos Primeiros Seis Meses de Vida”, um estudo de coorte que abrange diversas áreas — entre elas, o desenvolvimento motor, foco de pesquisa da fisioterapeuta.

As coletas eram realizadas em três momentos: no pós-parto, ainda no ambiente hospitalar, e nos três meses e nos seis meses de idade do bebê, em visitas domiciliares. Gestantes com diferentes ambientes intrauterinos — mulheres que fumaram ou sofreram com diabetes mellitus gestacional, por exemplo — foram selecionadas para participar do estudo. Após o nascimento, eram registrados dados da mãe, como as questões socioeconômicas e sociodemográficas, além de os dados de nascimento dos recém-nascidos, como o sexo, o peso de nascimento, o comprimento e o perímetro cefálico.

Nos três e seis meses de idade, realizavam-se as mesmas avaliações antropométricas das crianças, junto à avaliação do desenvolvimento motor grosso, conforme a Alberta Infant Motor Scale. Essa escala é composta por 58 itens, divididos em quatro subescalas, definidas pelas posturas em prono, supino, sentado e em pé. Os testes feitos com os bebês nessas quatro subescalas geram um escore total que classifica seu desenvolvimento motor. 

Resultados e próximos passos

A pesquisa de Andressa no mestrado, já com o processo de coletas finalizado, avaliou os dados coletados em quatro grupos de gestantes e os respectivos filhos: mães que fumaram durante a gestação; mães que tiveram o diagnóstico de diabetes mellitus gestacional; mães cujos bebês sofreram com restrição de crescimento intrauterino (que faz com que a criança nasça abaixo do peso, entre outros problemas); por fim, mães com uma gestação sem nenhuma das características anteriores, chamado de “grupo controle”, para fins de comparação com os outros grupos. 

A partir dessa análise, concluiu-se que possíveis efeitos prejudiciais dos ambientes intrauterinos analisados têm influência negativa no desenvolvimento motor durante os primeiros meses de vida. O grupo de restrição de crescimento intrauterino foi o mais impactado: “Achávamos no início (do estudo) que teríamos menores escores motores no grupo das mães que fizeram uso de cigarro durante a gestação”, relata Andressa. 

Uma das explicações para o resultado, segundo a fisioterapeuta, está nas limitações impostas pelo estudo: as características dos grupos analisados não poderiam ser compartilhadas, ou seja, mães que fumaram durante a gestação e tiveram filhos com baixo peso ao mesmo tempo não entraram na pesquisa, por exemplo. Por esse motivo, não foram analisadas possíveis crianças que sofreram com restrição de crescimento intrauterino por consequência do tabagismo. 

No doutorado, Andressa prossegue com a pesquisa, e a nova etapa envolve a análise de novas coletas com as mesmas crianças que participaram do estudo anterior. “Vamos estudando e analisando o que a gente pode melhorar para o estudo. A ideia agora é avaliar as habilidades motoras fundamentais”, pontua a pesquisadora. “Quero ver como essas crianças que estavam com seis meses estarão agora aos cinco anos — esse é o próximo desafio”, conclui. [1], [2]

[1] Texto de Oberdan Rodrigo Schumann.

[2] Publicação original: https://www.ufrgs.br/ciencia/pesquisa-investiga-a-influencia-de-ambientes-intrauterinos-no-desenvolvimento-motor-nos-primeiros-meses-de-vida/.

Como citar esta notícia: UFRGS. Pesquisa investiga a influência de ambientes intrauterinos no desenvolvimento motor nos primeiros meses de vida. Texto de Oberdan Rodrigo Schumann. Saense. https://saense.com.br/2023/10/pesquisa-investiga-a-influencia-de-ambientes-intrauterinos-no-desenvolvimento-motor-nos-primeiros-meses-de-vida/. Publicado em 05 de outubro (2023).

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