Jornal da USP
24/02/2026

Produto natural brasileiro demonstra atividade anticâncer e potencializa ação de quimioterápicos
Os resultados mostram que a cefalocromina não causou danos significativos às células sadias, o que pode reduzir os efeitos colaterais – Foto: rawpixel.com/Freepik

A cefalocromina, substância isolada a partir de um fungo da espécie Alternaria sp., mostrou-se ativa contra células de um tipo de câncer de mama agressivo, indicando importante potencial antineoplásico. Quando combinado a quimioterápicos comumente utilizados no tratamento da doença, o composto ainda intensificou a ação dos medicamentos. O artigo que apresenta estes resultados foi publicado na revista científica Journal of Natural Products por pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP.

A evolução dos tratamentos para câncer passa pela busca de novos fármacos que sejam mais eficazes e causem menos efeitos colaterais. Nesse sentido, a cefalocromina se apresenta como uma opção promissora: ela age na survivina, uma proteína presente nas células humanas apenas durante o desenvolvimento embrionário, aparecendo raramente em tecidos adultos – exceto em casos de mutação e malignidade, como no câncer. Os resultados mostram que o potencial anticâncer da cefalocromina não causou danos significativos às células sadias, o que pode reduzir os efeitos colaterais.

Os pesquisadores também observaram o comportamento desta substância quando combinada a medicamentos que já são utilizados na quimioterapia: paclitaxel e doxorrubicina. Nos dois casos, a presença da cefalocromina intensificou a ação dos fármacos. 

Este efeito sinérgico potencializador possibilita que doses mais baixas dos medicamentos combinados atinjam o mesmo nível de eficácia das altas doses utilizadas quando os tratamentos são feitos de forma isolada. 

“Usar fármacos em concentrações mais baixas pode gerar menos efeitos adversos, porque potencializa o efeito terapêutico, mas não, necessariamente, a toxicidade”, explica o professor João Agostinho Machado Neto, do Departamento de Farmacologia do ICB e supervisor da pesquisa.

De acordo com Machado Neto, os tratamentos que existem atualmente são eficazes contra o câncer de mama, mas alguns casos não respondem tão bem aos medicamentos disponíveis. O pesquisador explica que um dos focos do projeto foi investigar a possibilidade de um tratamento mais eficaz para o câncer de mama triplo-negativo, um subtipo agressivo caracterizado pela ausência de algumas proteínas específicas, o que limita as opções de tratamento devido à falta de terapias direcionadas.

“Um tratamento eficaz para um subtipo tão agressivo apresentar resultados promissores pode significar, para o futuro, o uso de doses menores, menos efeitos colaterais e pacientes com uma melhor qualidade de vida”, afirma Isabelle Diccini, primeira autora do artigo que apresenta os resultados de sua pesquisa de mestrado.

Vale ressaltar que esta é a primeira etapa no longo processo de desenvolvimento de um novo medicamento, que pode durar cerca de dez anos. Ainda são necessários muito tempo e dinheiro investidos para que uma substância se torne, de fato, um remédio. As próximas etapas incluem testes de eficácia e toxicidade em modelos animais, e testes clínicos de segurança e eficácia em humanos.

O artigo Cephalochromin Effects in Triple-Negative Breast Cancer Cells: Apoptosis Induction and Modulation of Survival Pathways está disponível neste link.

Mais informações: jamachadoneto@usp.br, com João Agostinho Machado Neto [1], [2]

[1] Texto de Eduarda Antunes Moreira

[2] Publicação original: https://jornal.usp.br/ciencias/produto-natural-brasileiro-demonstra-atividade-anticancer-e-potencializa-acao-de-quimioterapicos/

Como citar este texto: Jornal da USP. Produto natural brasileiro demonstra atividade anticâncer e potencializa ação de quimioterápicos. Texto de Eduarda Antunes Moreira. Saense. https://saense.com.br/2026/02/produto-natural-brasileiro-demonstra-atividade-anticancer-e-potencializa-acao-de-quimioterapicos/. Publicado em 24 de fevereiro (2026).

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