UFRGS
01/10/2026

Ferramentas gratuitas de inteligência artificial (IA) têm surgido dia após dia com recursos variados e à disposição de qualquer pessoa. Do ChatGPT ao DeepSeek, do Gemini ao Yuanbao, grandes empresas estadunidenses e chinesas estão apostando todas as suas fichas na revolução tecnológica proporcionada pelas IAs.
Mesmo que centrada no desenvolvimento humano, e não na produtividade, a sala de aula embarcou na febre que fez do uso da inteligência artificial um hábito: 56% dos professores das escolas brasileiras afirmam utilizá-la e 69% das pessoas com mais de 16 anos consideram que a IA ajuda muito nos estudos. Os dados são da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e da Fundação Itaú, respectivamente.
Com isso, a instrumentalização para o uso em âmbito educacional e os perigos da terceirização do raciocínio ganham ênfase no debate sobre os desafios inaugurados pela inteligência artificial dentro do ambiente escolar. Vice-diretor do Núcleo Estadual de Educação de Jovens e Adultos (Neeja) Paulo Freire, em Porto Alegre, Silvio Alexandre de Oliveira conta com o auxílio pontual da IA na elaboração de exercícios para formar um banco de questões. “Tem algumas [IAs] que funcionam para mim. É como se eu estivesse trabalhando em dupla”, declara o educador.
No ensino público, é comum que um único professor dê aula para mais de 30 alunos ao mesmo tempo, limitando as possibilidades de personalizar o aprendizado e levando docentes à sobrecarga de trabalho. Com isso em mente, a professora da Faculdade de Educação da UFRGS (Faced) Patrícia Silva está ensinando educadores das redes públicas da capital e da região metropolitana a dominar ferramentas de IA generativa, isto é, aquelas que criam novos conteúdos, como texto, imagem, áudio e vídeo. Ainda, a pesquisadora ensina como alinhar a inteligência artificial ao planejamento pedagógico. “[A IA deve ser] uma ferramenta de propósito geral, ou seja, podemos ir muito além dela e construir muitas outras coisas”, aponta Patrícia.
Uma das habilidades que a especialista tem buscado aprimorar com os professores é a criação de prompts eficazes – instruções específicas que se dá à IA para que ela produza respostas qualificadas.
“É preciso se adequar, fazendo com que os nossos alunos se tornem protagonistas no processo [de aprendizagem]” Patrícia Silva
Regulação do uso de IA e os riscos à cognição humana
O Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) publicou, em junho de 2025, um estudo que revela diferenças no funcionamento do cérebro entre três grupos de pessoas: as que não usam nenhuma tecnologia, as que utilizam mecanismos de busca online e aquelas que acionam a inteligência artificial. Ao colocar todos para escrever um texto, os participantes da pesquisa que fizeram solicitações ao ChatGPT registraram conectividades cerebrais mais fracas.
Não é a decadência da cognição, por sua vez, que a educação almeja. Na década de 1960, Paulo Freire enfatizou que “ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”. Portanto, se as IAs são relevantes no cotidiano, é tarefa do ensino básico reconhecer o contexto que o cerca e enriquecer a conscientização quanto ao uso da tecnologia. É isso que argumenta o diretor de Monitoramento e Avaliação da Educação Básica do Ministério da Educação (MEC), Valdoir Wathier.
“A questão não é se a IA faz uma redação melhor do que o estudante, porque o objetivo da educação básica não é a redação ou a resposta certa na prova. O objetivo da educação básica é desenvolver o ser humano”Valdoir Wathier
Até o momento, não há legislação no Brasil que regule a aplicação de inteligências artificiais seja nas salas de aula, seja no mercado empresarial. O tema é recente e está sendo discutido na Câmara dos Deputados por meio do PL 2.338/2023. O Governo Federal defende a regulamentação, mas, segundo Wathier, ainda não há consenso sobre como ela deva ser feita. Em fevereiro deste ano, o MEC lançou o Referencial para o Uso e Desenvolvimento Responsáveis de Inteligência Artificial na Educação, um documento que reafirma o lugar da inteligência artificial “como instrumento capaz de apoiar ações que fortaleçam a inclusão e ampliem a equidade — e não a exclusão”.
“O que defendemos é que haja um processo de protagonismo dos professores, no qual o docente é quem vai preparar a aula, conceber a abordagem pedagógica, definir a intencionalidade da metodologia e os objetivos daquela proposta. É ele quem vai conduzir esse processo junto com os estudantes, também estimulando, claro, a autonomia dos alunos”, completa.
No estado do Piauí, as escolas estaduais já contam com uma disciplina de inteligência artificial – a primeira do Brasil. Quem realiza o treinamento dos educadores é o Instituto Federal Farroupilha (IFFar), a Universidade Federal do Pampa (Unipampa) e a UFRGS, com apoio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). A matéria contempla assuntos como Curadoria de Dados, Aprendizagem de Máquina e Processamento de Linguagem Natural, combinando teoria e prática.
Uma das integrantes do projeto é a professora do Instituto de Informática Rosa Maria Vicari, que estuda inteligência artificial desde os anos 1980. De acordo com a cientista, é possível estudar sobre IA sem a necessidade de equipamentos ou de conexão wi-fi. No lugar das telas, os docentes podem se valer de jogos, brincadeiras e exercícios gerais. Isso porque o raciocínio mais utilizado pela IA é o reconhecimento de padrões.
“Um voluntário vai à frente na sala, faz algum tipo de movimento e os outros tentam reconhecer. [Dessa forma], se abre toda uma discussão de como reconheceu, de como não reconheceu, de quem chegou mais perto de reconhecer, de quais foram os padrões que levaram ao reconhecimento”, exemplifica. Vicari também destaca que trabalhar criticamente o uso da inteligência artificial permite educar os alunos a confirmar a veracidade das informações e a cuidar de seus dados pessoais.
Apesar de a capacitação dos professores piauienses ser realizada, em primeira instância, por profissionais gaúchos, a Secretaria de Educação do Rio Grande do Sul não teve interesse em firmar parceria com as instituições locais, conforme a estudiosa. Questionada se já possui diretrizes para o uso de IA nas escolas, a Seduc não respondeu ao JU.
IA facilita o aprendizado de alunos imigrantes nos Estados Unidos
No país em que as inteligências artificiais não foram importadas, a relação entre tecnologia e educação é diferente do Brasil. A invenção de máquinas capazes de imitar a mente humana surgiu nos Estados Unidos há quase sete décadas. Por essa razão, a presença de recursos multimídia em sala de aula não é novidade.
O mestrando em Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática (STEM) na Avila University Diogo Bacelar explica que, em alguns distritos, há professores usando IA para planejar aulas, adaptar atividades em consonância com o perfil de cada aluno e dar feedback personalizado às famílias. Outra utilização recorrente de inteligência artificial no território estadunidense é a partir do homeschooling, no qual os responsáveis por crianças e adolescentes adquirem softwares e aplicativos de IA para montar currículos a serem ministrados em casa.
No entanto, uma estratégia adotada pelos docentes para democratizar o acesso ao ensino chama atenção. “Já que há uma variedade cultural muito grande aqui, com estudantes vindos de diversas partes do mundo, com os recursos da IA é possível ter alguns projetos em outras línguas, o que facilita demais a aprendizagem”, salienta o pesquisador. Fora a possibilidade de traduzir materiais educacionais, as IAs também criam simulações, experimentos virtuais e laboratórios remotos.
“Terceirizar o esforço de pensar num contexto educacional é extremamente perigoso. É preciso mostrar que a IA, o celular, o tablet, o relógio e o óculos [inteligentes] não podem substituir o raciocínio, mas potencializar a aprendizagem” Diogo Bacelar
Nesse âmbito, as famílias desempenham papel crucial em estabelecer limites de horário e de intencionalidades do uso de aparelhos eletrônicos, como os celulares. No que diz respeito ao entrelaçamento do universo digital com a educação, os impasses são os mesmos, segundo Diogo, em qualquer lugar do planeta e independentemente da realidade social das escolas: garantir que o uso da IA e das tecnologias digitais não substitua o pensamento crítico e o esforço intelectual. [1], [2]
[1] Texto de Ana Paula Tavora
[2] Publicação original: https://www.ufrgs.br/jornal/uso-de-ia-no-processo-de-ensino-aprendizagem-exige-proposito-criticidade-e-protagonismo/
Como citar esta notícia: UFRGS. Uso de IA no processo de ensino-aprendizagem exige propósito, criticidade e protagonismo. Texto de Ana Paula Tavora. Saense. https://saense.com.br/2026/10/uso-de-ia-no-processo-de-ensino-aprendizagem-exige-proposito-criticidade-e-protagonismo/. Publicado em 01 de outubro (2026).