UFRGS
04/11/2026

Pesquisa identifica desfechos clínicos desfavoráveis de pacientes com câncer a partir da circunferência do braço
Foto: Thais Steemburgo/Arquivo de Pesquisa

A partir da circunferência do braço, uma medida simples, rápida e de baixo custo, pesquisadoras puderam identificar a baixa massa muscular e um maior risco de desfechos clínicos desfavoráveis em pacientes com câncer, tais como internação prolongada e, no pior cenário, a morte.

A pesquisa coordenada pela professora Thais Steemburgo, que envolveu a Liga Acadêmica de Oncologia e Nutrição da UFRGS e o Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), ajustou a medida da circunferência do braço de acordo com a gordura localizada do paciente, por meio do Índice de Massa Corporal (IMC). Isso melhorou a identificação de baixa massa muscular nesses indivíduos, principalmente entre aqueles que apresentam sobrepeso e obesidade. 

Entre os 618 pacientes oncológicos avaliados, apenas 1% apresentou baixa medida da circunferência do braço de acordo com a medida tradicional, já com o cálculo adaptado pelo estudo esse percentual aumentou para 33,3%.

Os resultados da pesquisa mostram que é possível identificar, precocemente, baixa massa muscular e maior vulnerabilidade clínica em pacientes com câncer. Isso faz com que se possa planejar uma dieta adequada, podendo resultar em uma melhor resposta aos tratamentos e maiores chances de recuperação.

Como é realizada a medida

As medidas foram feitas com os pacientes em pé, com o braço relaxado, no ponto médio entre a articulação do ombro e a ponta do cotovelo. A pesquisa avaliou pacientes adultos com tumores sólidos internados no Hospital de Clínicas. Ao ajustar a interpretação da medida de acordo com a adiposidade do paciente, por meio do IMC, foi mais fácil identificar indivíduos com baixa massa muscular, especialmente entre aqueles com sobrepeso e obesidade. 

Isto é, a partir da circunferência do braço foi subtraído o nível de gordura do paciente para fazer uma estimativa de sua massa muscular. De acordo com a coordenadora da pesquisa, nesses pacientes o excesso de gordura corporal pode mascarar a redução da massa muscular, dificultando um tratamento nutricional adequado.

“A gente sabe que a composição corporal nessa população, que está enfrentando essa doença oncológica, são pessoas que tendem a perder massa muscular, apresentar algum grau de desnutrição, e isso vai impactar no tratamento”.Thais Steemburgo 

Tendo em mãos o cálculo da massa muscular reduzida do paciente, foi feita uma interferência nutricional precoce, com o objetivo de adaptar a dieta e recuperar a massa muscular perdida o mais rápido possível. Para identificar pacientes com baixa massa muscular, foram realizados pontos de corte nos valores da circunferência do braço de 25 cm em mulheres e 28 cm em homens. 

Após a avaliação da circunferência do braço, são realizadas adaptações na dieta, com o objetivo de aumentar a massa muscular, geralmente perdida ao longo do tratamento ou em decorrência de uma internação. As pesquisadoras perceberam que os pacientes respondem melhor aos tratamentos, especialmente em relação a sua toxicidade, muito presente em quimioterapias. Se o paciente possui um maior índice de massa muscular, a toxicidade gerada pelo tratamento no organismo é menor, resultando em menos efeitos colaterais e maior probabilidade de recuperação.

Essas classificações também foram relacionadas à evolução clínica dos pacientes, usando métricas como: tempo de internação, mortalidade durante a hospitalização e mortalidade em até três meses. Esses fatores permitiram que as pesquisadoras avaliassem a capacidade da medida da circunferência do braço e identificassem pacientes com maior risco de desfechos desfavoráveis.

Uma técnica acessível

A pesquisa é inovadora porque foge dos métodos tradicionais para avaliar o índice de massa muscular de pacientes, geralmente baseados em exames de imagem, como tomografia computadorizada, raio-x, ressonância magnética e bioimpedância elétrica.

Embora esses métodos sejam importantes para a avaliação da composição corporal, eles apresentam barreiras como valor,  disponibilidade de equipamentos e a aplicabilidade rotineira à beira do leito, portanto não são realizados rotineiramente no contexto clínico. 

A técnica desenvolvida na pesquisa é simples e acessível em qualquer contexto hospitalar, por isso pode ser utilizada para avaliar a massa muscular do paciente com maior assertividade. O novo olhar que o estudo traz por ser usado em locais com poucos recursos, tais como hospitais públicos ou em regiões mais afastadas dos centros urbanos, que não possuem equipamentos mais sofisticados, visto que a técnica utiliza apenas uma fita métrica.

Para o futuro, as investigadoras pretendem avaliar essa técnica em outras populações e contextos assistenciais, além de relacionar os dados sobre a circunferência do braço com métodos de avaliação da composição corporal, como tomografia computadorizada e bioimpedância elétrica. 

“Isso permitirá compreender melhor o desempenho da técnica na identificação da baixa massa muscular e na predição de diferentes desfechos clínicos”.Thais Steemburgo

Outro desdobramento da pesquisa é avançar na investigação da incorporação da circunferência do braço, especialmente com o ajuste de adiposidade, aos protocolos de avaliação nutricional de pacientes oncológicos. A proposta não é substituir os métodos já existentes, mas ser um complemento e disponibilizar uma ferramenta simples que possa auxiliar na identificação dos pacientes que necessitam de avaliação e intervenção nutricional mais intensivas.

O trabalho integra uma linha de pesquisa que busca tornar a avaliação da composição corporal mais acessível, precoce e aplicável à prática clínica, utilizando medidas que possam ser realizadas mesmo em serviços com menor disponibilidade de recursos tecnológicos. [1], [2]

[1] Texto de Malu Tosin

[2] Publicação original: https://www.ufrgs.br/jornal/pesquisa-identifica-desfechos-clinicos-desfavoraveis-de-pacientes-com-cancer-a-partir-da-circunferencia-do-braco/

Como citar esta notícia: UFRGS. Pesquisa identifica desfechos clínicos desfavoráveis de pacientes com câncer a partir da circunferência do braço. Texto de Malu Tosin. Saense. https://saense.com.br/2026/11/pesquisa-identifica-desfechos-clinicos-desfavoraveis-de-pacientes-com-cancer-a-partir-da-circunferencia-do-braco/. Publicado em 04 de novembro (2026).

Notícias científicas da UFRGS Home