Adolfo Melo
25/02/2026

A polilaminina tem ganhado atenção por ser uma proteína capaz de promover a adesão celular, possibilitando a recuperação de vítimas de lesões na medula. Ela vem sendo estudada há cerca de 30 anos pela pesquisadora Tatiana Sampaio, do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, que é a principal mente por trás dessa descoberta [2]. Sob sua liderança, a equipe da UFRJ verificou a possibilidade de aplicação em células isoladas e, depois, em ratos. A conclusão foi que a polilaminina funciona como uma espécie de ‘trilho’, permitindo que os axônios voltem a crescer. Tatiana também coordenou um estudo com oito pacientes com paraplegia completa, cujo resultado foi uma taxa de recuperação de movimentos de 75%, concorrendo com a literatura médica, que prevê de 10 a 15% para casos semelhantes [2,3].
Lembrando que memristors — filmes finos que alteram sua resistência elétrica conforme estímulos externos — são promissores candidatos a simular o comportamento de sinapses biológicas. Será que existe alguma possibilidade de os memristors apoiarem, de alguma forma, a recuperação de lesões na medula?
Chen et al. (2023) [4] e Wang et al. (2025) [5] argumentam que os memristors possuem relevante potencial para recuperação de lesões na medula espinhal por meio de interfaces neuromórficas bio-implantáveis ou neuropróteses que mimetizam a comunicação biológica. Devido à estrutura de dois terminais, os memristors podem facilitar a interação em tempo real entre circuitos eletrônicos e a medula espinhal. Nervos artificiais já foram desenvolvidos usando memristors que convertem estímulos físicos, como pressão ou temperatura, em trens de pulsos elétricos, de forma semelhante aos nervos biológicos.
Sistemas neuromórficos construídos com memristors podem unir informações de diferentes tipos de sensores, tais como visão, toque e calor, para realizar um processamento complexo antes do sinal chegar ao cérebro, o que auxilia na consciência de proteção em pacientes com mobilidade reduzida. A Figura apresenta esquemas de aplicação dos memristors para: a) mimetizar propagação de pulsos em neurônios; b) ilustrar a propagação de um estímulo de pressão biológico em humanos e sua adaptação num circuito memristivo (c); em d) como se dá a adaptação à luz incidente, formando caminhos facilitados por oxidação e redução fotoinduzida — uma imitação eletrônica da retina; e) um circuito memristivo com caráter adaptativo de excitação e inibição ao estímulo luminoso externo.

Nesse sentido, podemos perceber as diversas aplicações sensoriais que os memristors desempenham e como eles auxiliam, assim como a polilaminina, na recuperação de pacientes paraplégicos. Enquanto a polilaminina funciona como um caminho físico para o crescimento de neurônios, conectando as extremidades da medula lesionada, um circuito memristivo pode conduzir e processar pulsos elétricos de forma similar ao sistema biológico.
A integração de circuitos memristivos com suportes de polilaminina representa uma estratégia multifacetada para contornar as limitações da regeneração neural. Enquanto a proteína restabelece a continuidade física da medula, o comportamento neuromórfico dos memristors oferece a plasticidade necessária para processar estímulos sensoriais e motores complexos. Essa abordagem híbrida, que combina o biológico com o sintético, posiciona o Brasil e a ciência internacional na vanguarda de uma medicina regenerativa mais inteligente, capaz de devolver autonomia a pacientes que, antes, encontravam poucas esperanças na literatura médica tradicional.
É importante ressaltar que a trajetória de três décadas da pesquisa com a polilaminina na UFRJ demonstra que a ciência de ponta não se faz sem resiliência e muito menos sem fomento financeiro contínuo. Projetos de longo prazo precisam de investimentos constantes para poder transpor o abismo entre o laboratório e a aplicação clínica. Neste sentido, o estudo dos memristors como uma nova ferramenta oportuniza uma estratégia a mais de tecnologias interdisciplinares que acelera o desenvolvimento de soluções capazes de reduzir o tempo de espera dos pacientes por tratamentos eficazes.
Diante da necessidade de evolução científica, o apoio financeiro é o fator principal que permite a dedicação histórica de cientistas, bem como a inovação de materiais inteligentes. Unir essas duas áreas de pesquisa é abrir caminho real para a recuperação de pessoas em sofrimento e para a soberania da ciência nacional.
[1] Imagem gerada por IA.
[2] Texto de Fabio Calsavara. Quem é Tatiana Sampaio, a pesquisadora brasileira que tenta curar a paraplegia. Gazeta do Povo. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/quem-e-tatiana-sampaio-a-pesquisadora-brasileira-que-tenta-curar-a-paraplegia/.
[3] Fantástico/G1. Polilaminina: a substância que reconecta a medula e traz esperança para pessoas com paraplegia. Disponível em: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2026/02/22/polilaminina-a-substancia-que-reconecta-a-medula-e-traz-esperanca-para-pessoas-com-paraplegia.ghtml.
[4] Chen, H.; Li, H.; Ma, T.; Han, S.; Zhao, Q. Biological function simulation in neuromorphic devices: from synapse and neuron to behavior. Science and Technology of Advanced Materials, v. 24, n. 1, 2023. DOI: https://doi.org/10.1080/14686996.2023.2183712.
[5] Wang, X.; Zhu, Y.; Zhou, Z.; Chen, X.; Jia, X. Memristor-Based Spiking Neuromorphic Systems Toward Brain-Inspired Perception and Computing. Nanomaterials, v. 15, n. 14, 2025. DOI: https://doi.org/10.3390/nano15141130.
[6] Materials Horizons (RSC Publishing). Memristive neuromorphic interfaces: integrating sensory modalities with artificial neural networks. DOI: https://doi.org/10.1039/D5MH00038F.
Como citar este artigo: Adolfo Melo. A polilaminina e os memristors podem ser o futuro para a recuperação de lesões na medula? Saense. https://saense.com.br/2026/02/a-polilaminina-e-os-memristors-podem-ser-o-futuro-para-a-recuperacao-de-lesoes-na-medula/. Publicado em 25 de fevereiro (2026).