Matheus Macedo-Lima
06/01/2016
A diferença entre a maioria das doenças psiquiátricas e a depressão é que esta pode ter um grande componente psicológico, portanto algumas abordagens psicoterapêuticas são eficientes (em conjunto com medicações). Por exemplo, um estudo mostra que a psicoterapia positiva – que procura evocar experiências e memórias positivas – foi eficiente em tratar pacientes depressivos [2]. No entanto, ainda é um mistério como esse tipo de tratamento age no cérebro.
A principal área do cérebro responsável por processar novas memórias é o hipocampo, mas memórias positivas também envolvem conexões do hipocampo com outras áreas, como a amídala (não as da garganta!), e dessa com o núcleo accumbens (que também faz parte do “circuito do prazer”). Levando em consideração o efeito da psicoterapia e esse circuito cerebral para memórias positivas, cientistas testaram se a ativação de um circuito que representa uma memória positiva poderia causar efeitos antidepressivos em animais [3].
Os pesquisadores colocaram animais machos em uma gaiola com brinquedos e uma fêmea (supostamente uma experiência bem agradável) e deram um jeito de marcar os neurônios ativos durante esse momento para manipulá-los depois. Para explicar melhor: eles utilizaram ferramentas modernas de engenharia genética para marcar e reativar (usando lasers!) neurônios no circuito “hipocampo-amídala-núcleo accumbens” que estavam previamente ativos durante a formação de uma memória positiva. Em outras palavras, o circuito neural que representava a memória positiva (chamado de engrama) pôde ser reativado artificialmente nos animais.
Agora a parte mais interessante: esses camundongos passaram por uma bateria de testes para avaliar comportamentos “depressivos”, e o engrama foi reativado no momento dos testes. Os cientistas observaram que comportamentos menos “depressivos” ocorreram apenas nos camundongos que recebiam estimulação durante os testes. Além disso, em outro grupo de animais, a ativação diária (crônica) desse engrama durante cinco dias foi capaz de conferir comportamentos menos “depressivos” durante os testes, mesmo quando o engrama não era ativado no momento dos testes.
Portanto, esse estudo fornece bases neurológicas para os efeitos observados na psicoterapia, na medida em que a reativação artificial de “memórias” agradáveis nos animais causou efeitos antidepressivos. Adicionalmente, foi comprovado o circuito envolvido nesse efeito (hipocampo-amídala-núcleo accumbens). É possível que, no futuro, a manipulação desses circuitos possa ser explorada em humanos para o tratamento mais focado da depressão.
Portanto, relembremos bons momentos sempre. Pode ser um ótimo remédio.
[1] Crédito da imagem: blinking idiot (Flickr) / Creative Commons (CC BY-ND 2.0). URL: https://www.flickr.com/photos/45325473@N04/4910647166/.
[2] MEP Seligman et al. Positive psychotherapy. Am Psychol 61, 774 (2006).
[3] S Ramirez et al. Activating positive memory engrams suppresses depression-like behaviour. Nature 522, 335 (2015).
Como citar este artigo: Matheus Macedo-Lima. Relembrar memórias positivas pode combater a depressão? Saense. URL: http://www.saense.com.br/2016/01/relembrar-memorias-positivas-pode-combater-a-depressao/. Publicado em 06 de janeiro (2016).
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Olá Augusto,
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Obrigado pelo comentário!
Importante estudo que pode confirmar o que o senso comum já assinala: quem sempre vê a vida positivamente,dificilmente fica triste/depressivo.
Exatamente, Gilton. Porém, mesmo utilizando dessa “terapia de lembranças”, o cérebro pode acabar se desestabilizando por conta de algum evento catastrófico ou patologias. Por isso, esse estudo sugere também possibilidades de intervenções neurológicas em casos extremos.
Obrigado pelo comentário!
Fiquei muito feliz com esta abordagem, pois sempre acreditei que relembrar momentos bons nos deixa mais felizes e motivados!