Jornal da USP
09/01/2021

Pessoas aguardando o barco da Sorocabana chegar para o comércio das vasilhas (1973) – Fotomontagem sobre fotografia de Roman Bernard Stulbach (acervo do Museu da Imagem e do Som de São Paulo)

A arqueologia consegue encontrar conexões entre povos separados por longos lapsos temporais. As cerâmicas produzidas ainda nos dias de hoje em comunidades de mulheres do interior e litoral paulista demonstram trajetórias de persistências de práticas tupiniquins do período pré-colonial. As análises revelam um legado de modos de produção (sociabilidades e técnicas) transmitidos oralmente, de geração em geração de mulheres que compartilhavam variadas experiências de vida, ao longo de cinco séculos. O artigo publicado no Journal of Anthropological Archaeology: “A pleasurable job”… Communities of women ceramicists and the long path of Paulistaware in São Paulo” conta a trajetória e a itinerância da cerâmica paulista. Os autores são os arqueólogos Marianne Sallum, pós-doutoranda do Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP, e Francisco Silva Noelli, doutorando pela Universidade de Lisboa, Portugal.

A cerâmica paulista, como define o artigo, é resultante da “cerâmica comum portuguesa apropriada e transformada no século XVI por mulheres tupiniquim da região de São Vicente, SP, para uso em assentamentos coloniais, e que suas descendentes vêm produzindo até hoje na região sudeste de São Paulo”. Nessa trajetória de persistência, a mulher que estava no protagonismo da arte cerâmica, articulou conhecimento, transformou práticas e reproduziu novas formas e formatos das vasilhas. Segundo os autores, a pesquisa propõe traçar o papel social dos antepassados dessas pessoas e a genealogia de suas práticas. Uma das linhas de investigação é mostrar que essas comunidades de mulheres foram apagadas ou ignoradas nos registros históricos e na construção do conhecimento acadêmico.

Os achados e a pesquisa histórica levaram os pesquisadores a repensar o papel das mulheres na sociedade colonial e sua mediação e negociação nas relações sociais entre as comunidades do litoral e interior. Eram elas, por exemplo, intermediárias principais no início das relações com os portugueses; centralizavam a segurança alimentar fazendo o manejo das roças, produzindo a cultura material para processar a alimentação, incluindo aí as vasilhas cerâmicas, e preparavam a geração mais jovem e os recém-chegados para manter os conhecimentos e práticas que garantiam a vida de suas comunidades.

Acordelado cerâmico

Segundo os pesquisadores, as práticas deixadas pelas ceramistas tupiniquins combinaram múltiplos fios de experiências que ainda persistem até hoje em olarias de municípios de Apiaí, interior de SP, e Iguape, litoral sul, por exemplo. Ali, as mulheres ainda dominam a produção das vasilhas e envolvem familiares nas oficinas comunitárias.  Entre as  técnicas mais antigas conservadas está o acordelado, um modo artesanal de produzir as peças com roletes de barro que vão sendo sobrepostos para fazer subir as paredes das vasilhas. Mesmo produzindo um menor número de peças, as artesãs preferiram manter essa técnica ao invés de adquirir rodas de oleiro que permitem a fabricação de peças em maior escala.

Itinerância

Segundo os pesquisadores, a produção cerâmica já era de domínio indígena quando os portugueses aportaram no Brasil. Com o estreitamento das relações sociais entre eles, as mulheres tupiniquins se apropriaram da tecnologia cerâmica portuguesa e as transformaram em algo que eram delas. “Esse é o reconhecimento do papel ativo das mulheres e a persistência delas das comunidades de práticas”, diz Noelli.

A arqueóloga explica que no período colonial, era comum que os utensílios domésticos fossem confeccionados de material cerâmico. Nas panelas, se cozinhava os alimentos, e nos pratos e nas tigelas de cerâmicas, eles eram servidos. Além de pratos, panelas e tigelas, havia as cuscuzeiras, a moringa e as botijas. Em algumas casas tinha mais variação, ostentavam louças e cerâmicas produzidas na Europa e na Ásia. Já o acesso às vasilhas industrializadas foi um fenômeno que ocorreu no século XIX, em alguns lugares apenas no século XX, explica Marianne.

Percorrendo esse caminho, as mulheres combinaram antigos e novos atributos e sustentam sua autonomia feminina, diz o estudo. Por volta de 1950, as comunidades ceramistas seguiram algumas trajetórias diferentes. Uma delas foi a criação de cooperativas de olaria para atender a demanda de artesanatos ornamentais.

Conexão entre gerações de mulheres pela prática do fazer cerâmico

Noelli explica que a genealogia da prática mantida até os dias de hoje é resultado de uma conexão contínua entre as gerações de mulheres ceramistas desde o período pré-colonial até as comunidades atuais. Para exemplificar, o artigo traz o depoimento de 1962 de uma idosa ameríndia que resume essa interação entre as mulheres ceramistas: “aprendi sobre o barro com minha avó chamada Ipa… ela também me contou que o processo de fabricação é um conhecimento dos nossos ancestrais. Dizia que naquela época a fabricação de cerâmica era obrigatória para as mulheres. Assim aprendi a fazer cerâmica com ela, que começou a construir na minha frente”, contou a idosa.

As fontes da pesquisa arqueológica incluem registros de publicações de arqueologia, acervos fotográficos e fonográficos, etnografias sobre as comunidades e acervos institucionais de vasilhas inteiras e fragmentadas guardadas em universidade e museus de várias cidades – São Paulo, Jundiaí, São Vicente, Itanhaém, Peruíbe, Iguape, Cananéia, Itapeva, Apiaí, Jacareí e Sorocaba. Também inclui documentação histórica de arquivos do Brasil e Portugal.

A pesquisa está sendo desenvolvida por Marianne Sallum, pós-doutoranda do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP, com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e Francisco Silva Noelli, doutorando na Universidade de Lisboa, Portugal, bolsista FCT. O estudo integra o projeto temático Fapesp sobre a presença humana em São Paulo, desde o período pré-colonial até o presente, coordenado pelo professor Astolfo Araujo, do MAE.

Mais informações: e-mail [email protected], com Marianne Sallum ou [email protected], com Francisco Noelli. [1]

[1] Texto de Ivanir Ferreira.

Como citar este texto: Jornal da USP. Panelas, paneleiras, vasos e vasilhames: itinerância da arte cerâmica paulista. Texto de Ivanir Ferreira. Saense. https://saense.com.br/2021/01/panelas-paneleiras-vasos-e-vasilhames-itinerancia-da-arte-ceramica-paulista/. Publicado em 09 de janeiro (2021).

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