UnB
21/06/2022

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Isabel Belloni Schmidt *

O Cerrado é a savana mais biodiversa e mais ameaçada do mundo. Savanas são lugares onde árvores e gramíneas (capins) convivem, e onde os invernos são secos e os verões chuvosos. Quase 2 milhões de km2 ou 25% do território brasileiro são ocupados há pelo menos 4 milhões de anos por esta vegetação diversa, que vai dos campos quase sem árvores às matas, quase sem capins. Além da diversidade, o Cerrado é conhecido como berço das águas por abrigar nascentes e rios que formam as principais bacias hidrográficas brasileiras.

A vegetação é resistente à seca que pode durar até cinco meses por ano. Nas áreas de campo e savanas do Cerrado, as plantas e animais também evoluíram com o fogo, que, há pelo menos 4 milhões de anos, começa naturalmente por raios e encontra nas gramíneas secas combustível para se propagar. As cascas grossas das árvores e as raízes profundas, com reservas de energia subterrâneas permitem que as plantas rebrotem vigorosas em alguns dias ou semanas. Os animais também desenvolveram estratégias para se proteger, em tocas, voando ou fugindo.

Desde 1960, o Cerrado tem sido transformado em grandes áreas agrícolas industriais, onde não resta nenhum ser nativo. A agricultura industrial ocupa hoje mais de 30% do território brasileiro e é baseada num pacote tecnológico com enorme uso de fertilizantes, um manejo inadequado do solo e da biodiversidade. O que faz de nós, brasileiros, os maiores consumidores mundiais de agrotóxicos.

Mais de 80% do Cerrado já foi perturbado e mais da metade totalmente convertido para outros usos. O manejo das áreas remanescentes é urgente.

O manejo de fogo nas áreas nativas chegou ao Cerrado em 2014, depois de décadas de tentativas de excluir o fogo deste sistema onde ele é natural e cultural – usado para plantar, manejar a paisagem e criar gado. O programa de Manejo Integrado do Fogo vem reduzindo incêndios, conflitos e protegendo matas sensíveis ao fogo em mais de 60 Unidades de Conservação (ICMBio) e Terras Indígenas (Ibama/Funai). Escolher onde, como, quando se fará fogo é uma maneira eficiente de manejar savanas em todo o mundo e custa muito menos econômica, ambiental e socialmente do que combater incêndios turbinados por anos de capins secos acumulados em áreas sem queimar.

Outra iniciativa importante no Cerrado é a restauração inclusiva, fazendo-o voltar para áreas já convertidas e que precisam ser recuperadas por motivos legais ou de funcionamento dos ecossistemas. A semeadura direta é uma técnica de restauração que possibilita a reintrodução (plantio) de plantas dos diferentes tipos que caracterizam o Cerrado (capins, ervas, arbustos e árvores), de forma simultânea e até mecanizada. Além disto, a semeadura direta requer grandes quantidades de sementes, o que gera oportunidade de renda para comunidades locais e valoriza o Cerrado conservado como fonte de sementes e renda.

Conhecer e cuidar do Cerrado usando as informações que temos é papel de toda a sociedade, e a Universidade pode e tem enorme protagonismo ao gerar informações aplicadas e formar profissionais atentos à realidade socioambiental em que vivemos. [2]

[1] Imagem: RosarioXavier / Pixabay

[2] Isabel Belloni Schmidt é bióloga e mestre em Ecologia pela UnB, fez doutorado nos EUA. É professora do Departamento e da Pós-Graduação em Ecologia na UnB. Cresceu e estudou no Cerrado, aprendeu e aprende com comunidades tradicionais e gestores ambientais como a ciência pode andar ao lado da prática para trazer informações úteis e ajudar a solucionar problemas ambientais. Tem orgulho de ter participado ativamente da implementação de ações de manejo de fogo no Cerrado e de iniciativas pioneiras de restauração inclusiva, usando sementes nativas e gerando renda para plantar Cerrado.

Como citar este texto:  UnB. Cerrado: como cuidar do berço das águas do Brasil? Texto de Isabel Belloni Schmidt. Saense. https://saense.com.br/2022/06/cerrado-como-cuidar-do-berco-das-aguas-do-brasil/. Publicado em 21 de junho (2022).

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