Jornal UFG
18/01/2023

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A mais diversificada fauna de peixes de água doce do mundo é encontrada na América do Sul. São aproximadamente cinco mil espécies presentes no subcontinente. Entender de onde vem essa megadiversidade foi o desafio assumido pelos cientistas do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Evolução da UFG, Fernanda Cassemiro, Thiago Rangel, André Menegotto, Marco Túlio Coelho e Robert Colwell, que, em parceria com pesquisadores nacionais e internacionais, conseguiram explicar o fenômeno e publicaram o estudo na prestigiada revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America (PNAS).

No trabalho, os pesquisadores reuniram uma robusta base de dados sobre as ocorrências das espécies e suas relações evolutivas. “Consideramos somente espécies que tiveram o DNA e sua genética avaliadas para fazer a filogenia (genealogia evolutiva)”, conta a pesquisadora Fernanda Cassemiro. Os cientistas utilizaram um dos mais completos conjuntos de dados de distribuições geográficas e relações evolutivas dos peixes sul-americanos para rastrear a influência da história geológica nas origens, extinções e dispersões dos peixes de água doce da América do Sul nos últimos 100 milhões de anos.Vincularam, assim, eventos de mudanças nos rios e lagos com o surgimento e manutenção da diversidade dos peixes. 

“Descobrimos que aumentos abruptos na origem de espécies coincidiram no tempo e no local com grandes eventos hidrogeográficos”, afirma Fernanda Cassemiro. Segundo ela, os dados sobre os peixes na região amazônica, por exemplo, puderam confirmar que o soerguimento dos Andes há 10 milhões de anos e a consequente conexão da parte oeste com a leste da Amazônia de fato ocorreu e reconfigurou a bacia amazônica. “A gente viu nos nossos resultados um pico de dispersão das espécies entre a região oeste e leste exatamente logo após a elevação dos Andes e esse é um dos resultados mais interessantes, pois mostra que a geologia, a configuração dos rios ao longo de milhões de anos, foi importante para aumentar a diversidade de peixes em toda a América do Sul porque facilitou a dispersão de espécies”.

Entre as descobertas, os pesquisadores identificaram que muitas espécies de peixes presentes hoje na América Latina se originaram mais rapidamente no oeste da Amazônia por volta de 30 milhões de anos atrás e persistiram por mais tempo do que em outras regiões. Para a surpresa dos cientistas, muitas das bacias hidrográficas avaliadas são pouco conhecidas em relação à ocorrência dos peixes de água doce, inclusive em regiões altamente ricas em espécie, como a amazônica. “Fizemos análises para tentar minimizar esse problema da falha amostral das espécies em algumas bacias”, afirmou Fernanda. A robusta base de dados, de acordo com a pesquisadora, será disponibilizada para qualquer pesquisador interessado. “Só o fato de a gente disponibilizar para a comunidade científica já é um avanço para responder futuras e importantes perguntas ecológicas e evolutivas”, afirma.

Outro aspecto igualmente importante, destacado pela pesquisadora, é o impacto do levantamento para a conservação das espécies. “Tenho visto in loco há alguns anos o aumento absurdo, principalmente, do desmatamento e garimpo na Amazônia. Portanto, o nosso estudo chama a atenção para a conservação da biodiversidade de peixes que levou milhões de anos para se formar e que, sem medidas de proteção, pode desaparecer rapidamente”. [2]

[1] Imagem: Ianare, Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0

[2] Texto de Carolina Melo.

Como citar este texto: Jornal UFG. Por que a América do Sul é berço da maior diversidade de peixes de água doce?  Texto de Carolina Melo. Saense. https://saense.com.br/2023/01/por-que-a-america-do-sul-e-berco-da-maior-diversidade-de-peixes-de-agua-doce/. Publicado em 18 de janeiro (2023).

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