Jornal da USP
30/05/2023

Imagem: Mohamed Hassan / PxHere, CC0

Por Antonio de Pádua Serafim, professor do Instituto de Psicologia da USP

Desde a Antiguidade, compreender as relações entre o cérebro, a cognição, a emoção e o comportamento foi e é uma questão que mobiliza diversas ciências, entre elas a Psicologia e a Neuropsicologia. Neste contexto, a neuropsicologia se configura como uma disciplina que integra a área da psicologia e das neurociências (grupo de ciências e disciplinas que estudam o funcionamento dos sistemas cerebrais).

Por integrar duas áreas científicas, como a psicologia e as neurociências, a formação em neuropsicologia demanda do(a) psicólogo(a) uma boa base de conhecimentos de neuroanatomia, neurofisiologia, neuroquímica, psicofarmacologia e neurologia, por um lado. E por outro, domínio com excelência das técnicas de entrevista clínica e diagnóstica, psicopatologia, psicologia cognitiva (entender sobre os processos da inteligência, atenção, memória, raciocínio etc.), técnicas de avaliação psicológica, psicologia do desenvolvimento, psicobiologia das emoções e noções de psicometria (desenvolvimento e validação de instrumentos psicológicos).

Dessa forma, a neuropsicologia é um campo de atuação profissional que apresenta recursos e ferramentas para analisar, investigar e propor intervenções das funções e alterações cognitivas, emocionais e comportamentais associadas às lesões ou disfunções cerebrais.

Quando se fala de “lesões cerebrais”, estamos nos referindo às situações que envolvem ação direta no cérebro gerando danos em sua estrutura e funcionamento por uma lesão física que pode ser provocada por traumatismo cranioencefálico (TCE), como nos casos de atropelamento ou acidente automobilístico, além do acidente vascular cerebral (AVC), também conhecido como “derrame cerebral”, tumores cerebrais e até os casos de intoxicações por metais pesados como mercúrio e chumbo, por exemplo.

Já quando nos referimos ao termo “disfunções cerebrais”, estamos falando principalmente de mudanças nas funções psicológicas como a atenção, memória, linguagem, raciocínio, habilidades visuais, julgamento, regulação emocional, habilidades motoras e tomada de decisão. Sendo assim, estas funções psicológicas podem sofrer mudanças no seu funcionamento quando as pessoas apresentam quadros psicopatológicos como ansiedade, depressão, esquizofrenia, transtorno afetivo bipolar, dependência química, por exemplo. Ou ainda quando a pessoa está passando por uma situação de estresse intenso ou sobrecarga, o que a leva, por exemplo, a se queixar de esquecimentos, dificuldades de concentração e dificuldades para planejar e executar uma atividade do dia a dia.

Dessa forma, é preciso deixar claro que na “disfunção” não há um dano físico no cérebro, e sim um funcionamento inadequado decorrente dessas condições.

Enquanto área de atuação, a neuropsicologia apresenta um conjunto de recursos e ferramentas que habilita o(a) neuropsicólogo(a) a desenvolver suas atividades na pesquisa, no ensino e na área da saúde (Neuropsicologia Clínica).

Pesquisa

Na área da pesquisa, suas atividades estão direcionadas ao desenvolvimento de instrumentos de medidas cognitivas e emocionais, tanto no desenvolvimento de protocolos de estudos, avaliação cognitiva e emocional dos impactos de procedimentos médicos, quanto na verificação da efetividade de tratamentos.

Neuropsicologia clínica

No seguimento da prática clínica, a atuação do(a) neuropsicólogo(a) contempla duas principais ações: a avaliação neuropsicológica e as intervenções neuropsicológicas.

Avaliação neuropsicológica

A avaliação neuropsicológica consiste em uma ampla coleta de informações da história da pessoa a ser avaliada e com familiares quando criança ou quando o adulto não apresenta condições para responder.

Assim, a avaliação neuropsicológica tem como objetivo investigar de forma minuciosa a presença de disfunções psicológicas (cognitivas, emocionais e comportamentais) que possam ser consequências de lesões cerebrais por trauma físico ou intoxicações, doenças degenerativas ou ligadas a quadros psiquiátricos e doenças que têm a disfunção neurológica, ou como resultado secundário sem que possa ser detectada por meio de exames clínicos ou de imagem, uma vez que o tecido cortical não está necessariamente comprometido.

Este exame normalmente consiste no uso da entrevista clínica e na administração de testes padronizados usando perguntas orais, papel e lápis, computadores, manipulação de materiais como blocos e quebra-cabeças e outros procedimentos.

Dependendo da área e do objetivo da avaliação neuropsicológica, o teste pode se concentrar em uma ampla gama de funções cognitivas, incluindo atenção, memória, linguagem, habilidades acadêmicas, raciocínio e resolução de problemas, habilidade visuoespacial e habilidades sensório-motoras.

O(a) neuropsicólogo(a) também pode administrar testes e questionários sobre aspectos psicológicos como humor, regulação emocional, comportamento e características da personalidade.
A avaliação neuropsicológica pode ser utilizada tanto para a criança, adolescente, adulto ou idoso, com os seguintes objetivos:

  • Auxílio diagnóstico: caracterização de um quadro específico (confirmação de diagnóstico; por exemplo: demência de Alzheimer, Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade);
  • Diagnóstico funcional ou disfuncional: compreender o impacto dos transtornos mentais, doenças orgânicas e/ou traços psicológicos sobre as funções psicológicas e o comportamento (impacto de uma depressão, psicose);
  • Prognóstico: após procedimentos médicos, farmacológicos ou cirúrgicos, busca-se avaliar a presença de déficits e funções preservadas como forma de acompanhar a evolução do quadro;
  • Planejamento e tratamento: utiliza-se da avaliação para o estabelecimento dos critérios de medida de efetividade de programas de intervenções não farmacológicas, como nos programas de reabilitação neuropsicológica, treino e estimulação cognitiva;
  • Para fins jurídicos, por meio da perícia: inserção da avaliação neuropsicológica como um recurso da perícia psicológica para questões penais, cíveis, trabalhistas e de vítimas para avaliação da extensão de danos cognitivos e comportamentais.

De uma maneira geral, as demandas para avaliação neuropsicológica englobam distúrbios do desenvolvimento, como autismo, dificuldades de aprendizagem, prejuízos da atenção, dificuldades cognitivas nos quadros psiquiátricos, concussão e lesão cerebral traumática como o TCE, epilepsia, câncer cerebral, acidente vascular cerebral e demências.

Intervenções neuropsicológicas

As intervenções em neuropsicologia de uma maneira geral têm sido propostas como um conceito amplo que aborda tanto os prejuízos cognitivos, como também os déficits emocionais, psicossociais e comportamentais causados por qualquer dano cerebral ou disfunções decorrentes de condições psicopatológicas.

Enquanto atividades, pode-se aplicar:

  • Treino cognitivo, que envolve a prática dirigida de um conjunto de tarefas padronizadas destinadas a produzir impacto em funções cognitivas específicas com vários níveis de dificuldade. Essas tarefas podem ser oferecidas a indivíduos ou grupos em formato impresso (lápis e papel) ou computadorizado;
  • Estimulação cognitiva, definida por ações já direcionadas para pessoas com algum prejuízo funcional, que pode englobar uma série de atividades prazerosas que produzem estímulo geral para o raciocínio, a concentração e a memória – normalmente, ocorre dentro de um contexto social, inclusive por recursos computacionais;
  • Reabilitação cognitiva, cujo objetivo visa a melhorar a função diária, e não o desempenho nos testes cognitivos, e incorpora o uso de práticas compensatórias, em vez de se concentrar na restituição da função, como no treinamento cognitivo.

Destaca-se que nos programas de intervenções neuropsicológicas também ocorre o uso da avaliação neuropsicológica como um recurso para medir a eficácia de cada intervenção. Sendo assim, a avaliação é utilizada antes da intervenção para levantar o panorama de dificuldades ou déficits e, após a aplicação da intervenção, para verificar as modificações em termos de melhorias.

Com a criação do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Avaliação Psicológica e Neuropsicológica (LEANPSI) no Instituto de Psicologia da USP, busca-se colaborar com a formação na área da avaliação psicológica e neuropsicológica na clínica e na pesquisa de acordo com as orientações mais atualizadas das principais instituições e organizações internacionais da área. Esta formação proporciona conhecimentos para atuar em vários segmentos, como hospitais, clínicas, setores da justiça, organizações e área da educação.

Posto isto, a avaliação psicológica/neuropsicológica não deve ser compreendida como um processo reducionista e classificatório, mas sim, como um processo compreensivo da pessoa (na qual se busca a identificação tanto dos déficits ou disfunções quanto daquilo que está preservado) com vistas a aprimorar técnicas diagnósticas e a se pensar programas de intervenções mais adequadas à situação. [1]

[1] Publicação original: https://jornal.usp.br/artigos/neuropsicologia-da-formacao-a-aplicacao-pratica/.

Como citar este texto: Jornal da USP. Neuropsicologia da formação à aplicação prática.  Texto de Antonio de Pádua Serafim. Saense. https://saense.com.br/2023/05/neuropsicologia-da-formacao-a-aplicacao-pratica/. Publicado em 30 de maio (2023).

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