Fiocruz
12/06/2023

O Aedes aegypti recebe a bactéria Wolbachia, que impede de transmitir a dengue e outras doenças. — Foto: Flávio Carvalho/WMP Brasil

No porta-malas de uma SUV branca, cabem quatro caixotes, 600 tubos, 6 mil mosquitos em um cálculo por baixo. Uns e outros escapam dos cilindros, picam braços, pernas e orelhas, azucrinam passageiros — mas não é o caso de tentar abatê-los. Nos bancos da frente do veículo, os assistentes de projeto Fábio Costa e Fábio Rodrigues estão acostumados com as travessuras dos bichinhos. Cinco vezes por semana, a dupla repete o trajeto de 13 quilômetros da ponte Rio-Niterói na companhia dessa nuvem de pequenos seres que já foram ovo, larva, pupa e agora atingiram a fase de mosquito adulto. Não que sejam mosquitos comuns.

Esses mosquitos que em breve serão entregues a agentes de combate à endemia e agentes de controle de zoonose em Niterói, do outro lado da ponte, saíram de uma biofábrica no Rio de Janeiro. Neles, foi injetada a bactéria Wolbachia — trivial na natureza, presente em cerca de 60% dos insetos do planeta, inclusive no pernilongo comum, mas que nunca havia sido encontrada no Aedes aegypti, explica o pesquisador da Fiocruz, Luciano Moreira, coordenador no Brasil de uma bem-vinda tecnologia que tem se transformado em um poderoso aliado no controle das arboviroses. 

Batizado oportunamente de método Wolbachia, consiste na liberação de Aedes aegypt com Wolbachia nos territórios para que esses mosquitos se reproduzam com os aedes locais e ajudem a estabelecer uma nova população de insetos, todos portando a bactéria e não transmitindo doenças. “Isso demonstra a grande possibilidade de utilização dessa ferramenta”, comprova Luciano. 

O pesquisador brasileiro estava na Austrália, em 2008, quando uma equipe liderada pelo professor Scott O’Neill investigava a hipótese. Com uma injeção mais fina que um fio de cabelo, cientistas retiraram a Wolbachia da drosófila, a mosca das frutas, e inseriram nos ovos do Aedes aegypti. Após décadas de pesquisa, eles chegaram à conclusão de que esse microorganismo, inofensivo para seres humanos, bloqueia a replicação do vírus de dengue, zika, chikungunya e febre amarela nos insetos. 

Desde 2014, o Brasil integra o rol de 11 países que compõem o Programa Mundial de Mosquitos (ou World Mosquito Program, da sigla WMP). Conduzido pela Fundação Oswaldo Cruz, com financiamento do Ministério da Saúde em parceria com governos locais, é na sede da Fiocruz, mais precisamente no Campus Maré, na Avenida Brasil, que ganham vida os Wolbitos — como são carinhosamente chamados os mosquitos com Wolbachia. 

O sucesso do Wolbito

De início, os bairros Jurujuba, em Niterói, e Tubiacanga, na capital fluminense, foram os escolhidos para uma fase piloto do programa. Em menos de uma década, a iniciativa passou a ser executada também em Belo Horizonte, Campo Grande e Petrolina, e ganhou cada vez mais visibilidade.

O método Wolbachia foi parar até no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em 2022. A questão fazia referência a um ensaio clínico que apontou uma redução de 77% dos casos de dengue na cidade de Yogyakarta, na Indonésia, em áreas que receberam o mosquito Aedes aegypti com a bactéria. O estudo revelou ainda a redução de 86% das hospitalizações nesses locais. 

A eficácia do método foi comprovada também por um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, publicado em outubro de 2022 na prestigiada The Lancet, a mais importante revista das ciências médicas, que analisou exatamente os dados da aplicação dessa tecnologia no Brasil. 

Com resultados tão expressivos, mais recentemente, no final de março, foi anunciada a construção de uma nova biofábrica, com capacidade para produzir até 100 milhões de Wolbitos por semana — 5 bilhões ao ano. Durante o evento de lançamento em Brasília (30/3), a secretária de Vigilância em Saúde e Ambiente do Ministério da Saúde (SVSA/MS), Ethel Maciel, disse que, ao final de quatro anos, espera ter pelo menos 70% dos municípios que enfrentam hoje a maior carga da doença cobertos pelo método inovador. 

São boas notícias, principalmente quando os casos de dengue crescem assustadoramente no país. Entre janeiro e abril, foram mais de 899 mil casos prováveis da doença, um aumento de 30% em relação ao mesmo período de 2022. Este ano, já foram confirmados 333 óbitos.

Natural e autossustentável

A olho nu, não é possível distinguir o Wolbito do Aedes aegypti sem a Wolbachia. Mesma cor e tamanho. Listras brancas nas patas. Menos de um centímetro de comprimento. A diferença está na bactéria presente nas células dos mosquitos e isso só é visível em laboratório por meio de técnicas de biologia molecular. Mas é importante dizer que o método Wolbachia não envolve modificação genética nem no mosquito nem na bactéria. 

Para Luciano, essa é mais uma grande vantagem. “O Wolbachia é como se fosse um controle biológico. Além de tudo, ele ainda é autossustentável”. Significa dizer que os próprios mosquitos são responsáveis por impedir a transmissão das doenças uma vez que, no território, os Wolbitos vão se proliferando até que a maioria da população de mosquitos esteja com a Wolbachia. 

Uma curiosidade: nem todos sabem, mas é a fêmea do mosquito que possui a Wolbachia em seu organismo e é capaz de transmiti-la a todos os seus descendentes — mesmo que ela acasale com machos sem a bactéria. “Com o tempo, o percentual de mosquitos que carregam a Wolbachia aumenta até que não haja mais necessidade de novas liberações. A gente pode seguir apenas monitorando e colhendo os frutos por anos”. Existem áreas do Rio de Janeiro e Niterói, ele exemplifica, cujas liberações foram feitas há oito anos e os mosquitos continuam ali presentes positivos com a bactéria. 

Luciano lembra, no entanto, que apesar de todos os benefícios, o método Wolbachia é complementar às demais ações de controle. As graves desigualdades sociais e sanitárias que ainda persistem no país tornam ainda mais importantes as ações de combate à dengue, zika e chikungunya por parte da população e do poder público. “Para que a gente consiga ser bem-sucedido, é preciso eliminar os criadouros. Todas as iniciativas precisam estar acontecendo ao mesmo tempo”, sugere. “Nem a população nem o poder público devem mudar de comportamento porque os Wolbitos vão estar no território. A rotina do município e da população deve permanecer”. 

VISITA À BIOFÁBRICA

Em um prédio modesto localizado em um anexo da Fiocruz, no Rio de Janeiro, funciona atualmente a biofábrica do método Wolbachia. É lá que cerca de 20 pessoas se revezam na missão de criar Wolbitos em um ciclo ininterrupto que não parou nem mesmo durante a pandemia — ainda que nesse período as rotinas tenham sido adaptadas. O objetivo é otimizar a reprodução dos aedes com Wolbachia.  

No princípio, são os ovos. Negros e do tamanho de um grão de areia, eles ficam acomodados na sala de triagem da biofábrica em algo semelhante a fitinhas — cada uma delas contendo cerca de 10 mil ovos. Numa segunda sala, mais quente e úmida, os ovos aguardam em bandejas até eclodirem em larvas, diariamente alimentadas com uma dieta especial à base de uma solução açucarada. 

No último dos quatro estágios de desenvolvimento, cada larva se transforma em pupa, uma espécie de casulo. “Essa é a única fase em que o mosquito não se alimenta”, explica Cátia Cabral, coordenadora da biofábrica e integrante do programa desde o início. Em cerca de 48 horas, a pupa vai estar pronta para se tornar o mosquito adulto em sua forma alada. “Uma parte deles fará parte da nossa colônia, que produzirá mais ovos de mosquitos”, ela informa. “Já outra parte será utilizada para a liberação nos territórios”. O ciclo completo de produção de Wolbitos dura entre 7 e 10 dias.

O último cômodo é a sala das colônias, que abriga as gaiolas com os mosquitos adultos — mais parecidas com berços, as maiores comportam até 32 mil Wolbitos. “Todos com Wolbachia”, faz questão de ressaltar Cátia. “Aqui, a gente tem o máximo de cuidado e controle para evitar a entrada de mosquitos externos que possam contaminar a colônia”.

Semanalmente, a equipe recolhe material para diagnóstico. Para os territórios só são liberados Aedes aegypti que contenham a bactéria. “A gente sabe que não vai acabar com as arboviroses completamente. Mas é muito impactante fazer parte de um programa que reduz bastante a incidência de doenças como dengue, zika e chikugunya”, resume a pesquisadora. 

Cada integrante do programa cuida minuciosamente da parte que lhe cabe nessa cadeia de produção. “É assim que eu me sinto: uma produtora de mosquitos”, assume, orgulhosa, a pesquisadora Maxmira Reis, mais conhecida como Max, que faz parte do WMP Brasil desde 2016. Ela é uma das responsáveis pela maturação das larvas, formação das pupas e envio para campo. 

“É muito gratificante participar de programa tão inovador que tem como resultado direto a queda das doenças”, descreve. Não sem razão, há quem se defina ainda como “cuidadora” ou mesmo “mãe” de mosquito, como Lilian Pereira e Carol dos Santos, dupla que se reveza na sala das colônias. “Tudo isso aqui é incrível. A ciência é sensacional”, dizem em coro.

Calça jeans, máscara, luva, botas de plástico para alguns, jaleco azul para outros — o avental fininho nessa cor é recomendável para quem trabalha com o sangue se diferenciar do restante da equipe, explica Cátia. Essa é a indumentária. Numa visita à biofábrica, só não cometa o equívoco de andar com braços ou pernas à mostra. “Wolbitos gostam de sangue novo”, brinca a cientista, enquanto dispara para a colônia de mosquitos ao seu redor: “Vamos tratando de colocar ovo, hein! Vocês estão recebendo do bom e do melhor”.

ENGAJAMENTO COMUNITÁRIO

Ométodo Wolbachia não se resume à criação e distribuição dos Wolbitos. Para funcionar, ele depende da participação e envolvimento da população. “Fazemos um grande trabalho de engajamento comunitário, como a gente chama o nosso programa de aceitação pública”, conta ainda à Radis Luciano Moreira. 

Antes da soltura de qualquer mosquito nos territórios, a população é devidamente informada e, mais do que isso, consultada. São realizadas reuniões e conversas públicas em unidades de saúde, escolas, igrejas, associações de moradores, organizações não-governamentais. Depois disso, é aplicada uma pesquisa de opinião pública e só quando aprovado, o programa passa a ser implementado na região e os Wolbitos, enfim, podem ser liberados. Para acompanhamento de todas as ações, é formado um comitê local ou Grupo Comunitário de Referência.

Foi assim no Complexo do Alemão e na Penha, Zona Norte do Rio de Janeiro. Moradora da região e integrante da ONG Espaço Democrático e Abrangente do Alemão (Educap), Lúcia Cabral elogia as estratégias e formas de diálogo com a equipe. “Não adianta promover saúde com um texto pronto. Nesse caso, foi tudo muito didático e criativo”, diz. “As lideranças comunitárias foram convidadas a conhecer o berçário dos mosquitos na biofábrica, houve reunião, visitas às casas de moradores para explicar o método, eventos em um casarão envolvendo teatro, grafite, distribuição de revistas em quadrinho”.

Nessa etapa de engajamento, também são divulgados os canais de comunicação e perfis nas redes sociais do projeto, como o “Fale com o Wolbito”. Há ainda o “Wolbito na Escola” — outra ponta eficaz da estratégia, a parte do programa voltada para educadores com atividades em sala de aula [Veja matéria aqui]. 

No Brasil, de acordo com o WMP, um milhão de pessoas estão engajadas no projeto. Nas páginas das redes sociais, é comum ler comentários em busca de mais informações ou mesmo procurando saber quando o método Wolbachia chegará à sua região. “A gente tem tido números fantásticos, cerca de 90% da população aceitando a liberação dos mosquitos”, complementa Luciano.

Apesar de todo o trabalho de engajamento feito nas fases que precedem a implantação do projeto nas comunidades, a intimidade entre população e mosquito às vezes não acontece de imediato. Nessas ocasiões, Lúcia costumava lembrar aos moradores do Alemão que aquele era “um mosquito da cura”, que ele iria “trazer saúde e não doença”. “Para uma comunidade que sofre com problemas de saneamento básico e que já perdeu muitos para a dengue, era muito importante entender que o aumento da população de mosquitos era por uma boa causa”, completa a líder comunitária. “Aqui, foi formada realmente uma rede para a promoção de saúde no território”.

Já houve situações mais delicadas que aconteceram ao longo da implantação do programa nos estados. Em Petrolina, município também contemplado com o método Wolbachia, a soltura de Wolbitos ocorre de outro modo. Diferentemente de Niterói, onde os agentes liberam mosquitos adultos abrindo os tubos à medida que avançam pelo território, na cidade pernambucana o método adotado é o Dispositivo de Liberação de Ovos (DLO). 

Funciona assim: um recipiente com pequenos furos nas laterais contendo ovos de Aedes aegypti com Wolbachia, água e alimento para as larvas que vão nascer é colocado em locais estratégicos. Quando elas se transformam em mosquitos adultos voam para fora do dispositivo. Numa ocasião, antes mesmo de se concluir o processo, surgiu na cidade o boato de que “a prefeitura estava produzindo lixo biológico”, seja lá o que isso quisesse dizer. 

No Rio de Janeiro, outra fake news — essa disseminada durante a pandemia — dava conta de que “a Fiocruz estava liberando o coronavírus na cidade”. Identificada, a autora do post nas redes sociais foi convidada para conhecer a biofábrica na sede da Fiocruz e acabou se tornando uma das maiores defensoras do projeto.

EM NITERÓI, COM OS WOLBITOS

No galpão da Companhia Municipal de Limpeza Urbana de Niterói (Clin), localizado no Largo da Batalha, agentes de combate às endemias (ACE) se preparam para mais um dia de trabalho. Antes das 8 horas, um a um, eles surgem a pé, de bicicleta, de carro, enchem suas bolsas e mochilas com os tubos recebidos da dupla que veio do Rio e já separados na bancada, e partem para a liberação dos Wolbitos nos bairros previamente mapeados. 

Mary da Costa é uma das primeiras a chegar. “A gente cresce aprendendo a matar mosquito e agora vai abrir um tubo e soltar os bichinhos pelos ares”, brinca, antes de emendar. “Mas, nesse caso, soltar mosquito hoje significa ter ótimos resultados amanhã”.

No roteiro de Mary, estão o Morro do Mato Grosso, o da Bromélia, o da Cocada, considerados áreas de risco. Afora aquela vez em que o motorista do veículo que lhe conduzia esqueceu de ligar o pisca-alerta e as coisas ficaram um pouco tensas durante uma batida policial, ela garante que nunca teve problemas com a população. “Eles até brincam: solte mais de um mosquito, solte dois”, lembra. “Por mim, essa atividade não pararia nunca. É muito gratificante”. 

Em dias alternados, Mary segue fazendo o trabalho de educação junto aos moradores. Continua recomendando à população: evite armazenar água; mantenha o ambiente limpo, caixas e tonéis fechados; coloque areia nos pratinhos com plantas; não jogue lixo em terreno baldio. “Mas agora, além de levar informação, contamos com esse aliado poderoso para combater a dengue. Somos privilegiados”.

Niterói deve ser a primeira cidade brasileira com 100% do território coberto pelo método Wolbachia. O projeto teve início com uma ação no bairro de Jurujuba, ainda em 2015. De lá para cá, nessa região piloto, houve uma redução de 69,4% nos casos de dengue, 56,3% de chikungunya e 36% de zika. Hoje os Wolbitos já estão presentes em 75% do município. Os resultados impressionam. Se em 2016, foram registrados 3.369 casos de dengue na cidade, em 2022, o número caiu para 12. Este ano, até março, foram apenas três casos da doença, segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde. 

“Já deu certo!”, comemora o agente Hélio Ferreira da Costa. Além dos benefícios óbvios demonstrados pelas estatísticas, ele percebe outros: “Desde hospitais menos lotados por doenças provocadas pelo Aedes aegypti até a desintoxicação em organismos saturados pelo contato de anos com inseticidas”. Esta fase de liberação dos mosquitos dura em média 20 semanas. Estava na décima oitava quando Radis acompanhou o trabalho pelos bairros da cidade. 

O aumento da população de mosquitos já provocou situações inusitadas. Certa vez, uma moradora de Niterói ameaçou chamar a polícia para um dos agentes. “Mas por quê?”, indagou o profissional da saúde, que ouviu como resposta: “É porque você está soltando esse mosquito. Saiba que já comprei inseticida e vou matar todos!”. De bate-pronto, ele explicou que os Wolbitos que estava liberando deveriam justamente cruzar com os mosquitos da natureza e passar a Wolbachia para as próximas gerações, o que deveria garantir uma população total de mosquitos com a bactéria e, portanto, incapazes de transmitir dengue, zika ou chikungunya. “E a senhora quer matá-los?! Eu que deveria chamar a polícia para prendê-la”, brincou.

O episódio narrado à Radis aconteceu com o agente de endemias Almir Alves de Aguiar. Ele entende a resistência de alguns e faz graça. “Pode parecer estranho. Agora, estamos soltando aquilo que anteriormente a gente combatia. Mas eu fico muito contente em fazer parte desse projeto”, diz, informando para quem quiser saber que a situação acabou em gargalhadas com a moradora devidamente convencida. O trabalho de engajamento comunitário feito anteriormente pelas equipes de mobilização segue sendo atualizado com sucesso em campo pelos agentes.

Monitoramento

Naquela manhã, logo após distribuir os tubos com os agentes de endemia, Fábio Costa e Fábio Rodrigues tinham outra missão: o monitoramento dos pontos de coleta. Quinze dias antes, eles haviam instalado as “armadilhas” em casas e estabelecimentos comerciais de voluntários do projeto e em espaços públicos. Fácil de identificar, cada armadilha é como um potinho semelhante a um vaso de planta, que contém uma palheta de madeira, conhecida como ovitrampa. 

Essa atividade é necessária para analisar se os Wolbitos estão se estabelecendo nos locais de liberação e dessa maneira descobrir se a soltura está surtindo o efeito desejado, explica Fábio Costa. Depois de coletar as palhetas, a dupla — que funciona como os olhos do projeto em campo — leva o material para análise em laboratório. 

De luvas azuis, Fábio Rodrigues desce do carro, verifica os recipientes, retira as palhetas, aqui e ali conversa com os moradores. “Tá dando resultado a pesquisa?”, quer saber a dona do hortifruti que abriga uma das cerca de 105 armadilhas espalhadas por Niterói. “Esse daí é o pessoal do controle de mosquito”, explica um transeunte. A operação de coleta segue por outros 10 pontos entre comércios, cantos de rua, terrenos baldios, ladeiras de difícil acesso. 

Numa calçada, um morador atento, Júlio Alfredo Aguiar, que há 60 anos mora numa região encravada entre o Largo da Batalha e o Badu, acompanha o movimento dos agentes da Fiocruz e aproveita para elogiar. “É muito bom ver a ciência acontecendo e o trabalho daqueles que se preocupam com a nossa saúde. Eles me explicaram que colocavam as armadilhas para monitorar e depois voltariam para recolher as amostras. E assim tem sido. É verdade que aumenta um pouquinho a quantidade de mosquito”, diz. “Mas a gente já sente o benefício”. 

Acabada a rota, a dupla passa outra vez no galpão da companhia de limpeza urbana, pega os tubos vazios, que são devidamente acomodados pelos agentes de endemia, e segue de volta para o Rio. Até o dia seguinte, quando a rotina recomeça. Em 15 dias, eles recolherão outra vez as amostras.

COMO FUNCIONA O MÉTODO WOLBACHIA

  • O método Wolbachia pode ajudar a reduzir o número de casos de dengue, zika e chikungunya onde são liberados os mosquitos com a bactéria.
  • Esse é um método complementar. A população e os governos devem continuar a realizar as ações de prevenção a essas doenças.
  • Já existem resultados que comprovam a eficácia do método. Em Yogykarta, na Indonésia, foram constatados 77% — e, em Niterói, 69,45% — de redução de casos de dengue onde foram liberados os Aedes aegypti com Wolbachia.
  • Essa é uma tecnologia autossustentável. Após algumas semanas de liberação, a Wolbachia se estabelece no território através da transmissão do microorganismo para as próximas gerações. Assim não é preciso estar sempre liberando esses mosquitos.
  • A Wolbachia não é prejudicial aos seres humanos nem aos animais. Ela está presente em cerca de 60% dos insetos do mundo e nunca afetou ninguém.
  • O mosquito com Wolbachia não é transgênico. A bactéria só foi transferida para o Aedes aegypti, sem nenhuma modificação genética nem no mosquito nem na Wolbachia.

Fonte: WMP BRASIL [1], [2]

[1] Texto de Ana Cláudia Peres

[2] Publicação original: https://radis.ensp.fiocruz.br/reportagem/ciencia/o-segredo-da-wolbachia/

Como citar este texto: Fiocruz. O segredo da Wolbachia.  Texto de Ana Cláudia Peres. Saense. https://saense.com.br/2023/06/o-segredo-da-wolbachia/. Publicado em 12 de junho (2023).

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