Jornal da USP
18/07/2023

“Comer transtornado” é entendido como comportamentos, pensamentos e sentimentos disfuncionais em relação à alimentação e ao corpo que estão ligados à vontade de controlar o peso ou forma corporal; “determinantes das escolhas alimentares” refere-se ao porquê da pessoa comer o que come – Foto: Freepik

A ocorrência de “comer transtornado”, isto é, motivado por ideias disfuncionais sobre alimentação e corpo, é dez vezes menor entre pessoas que seguem dietas veganas do que entre os seguidores de outros tipos de dieta, revela pesquisa da USP. O trabalho, feito com pessoas adeptas desse tipo de alimentação, sugere que a possível causa do comer transtornado – que é um fator de risco para o desenvolvimento de um transtorno alimentar – não é o veganismo em si, mas sim os motivos que levam às escolhas alimentares e a realização de mudanças, processo similar ao observado em outras dietas. Os resultados do estudo foram publicados no Journal of American Association of Medicine Network Open (JAMA), nos Estados Unidos.

“O objetivo era identificar a prevalência de comer transtornado e os determinantes das escolhas alimentares, e investigar possíveis associações entre eles em pessoas que seguem uma dieta vegana”, explica ao Jornal da USP o professor Hamilton Roschel, coordenador da pesquisa. “É importante esclarecer o que se entende por ‘comer transtornado’ e ‘determinantes das escolhas alimentares’. O primeiro conceito é entendido como comportamentos, pensamentos e sentimentos disfuncionais em relação à alimentação e ao corpo que estão relacionados à vontade de controlar o peso ou forma corporal. O segundo conceito refere-se ao porquê da pessoa comer o que come.”

A pesquisa desenvolvida pela Faculdade de Medicina (FMUSP) e Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP avaliou 971 adultos de ambos os sexos que seguiam uma dieta vegana por, pelo menos, seis meses, moravam no Brasil e tinham acesso à internet. “Os participantes responderam a um questionário online com informações demográficas e socioeconômicas, como renda e nível de escolaridade; antropométricas, entre elas peso e altura; e sobre estilo de vida, por exemplo, fumo e atividade física”, descreve o professor. “Além disso, foram utilizados dois questionários padronizados acerca do comer transtornado, o Disordered Eating Attitude Scale, e dos determinantes das escolhas alimentares, o The Eating Motivation Survey.

“Observamos que apenas 0,6% da população estudada foi identificada como tendo um ‘comer transtornado’ e, a maioria dos participantes relatou comer o que come por motivos relacionados a necessidade e fome (‘tenho fome’), preferência (‘porque gosto’), saúde (‘para manter uma alimentação balanceada’), hábitos (‘normalmente como isso’) e questões naturais (‘é orgânico’)”, relata Roschel. “A minoria relatou que suas escolhas alimentares são determinadas por motivos relacionados a controle de emoções (‘estou triste, frustrado’), normas sociais (‘seria grosseria não comer’) e imagem social (‘os outros gostam’).”

Escolhas alimentares

Apesar da pequena porcentagem de pessoas que manifestaram a presença de “comer transtornado”, a pesquisa observou que alguns determinantes das escolhas alimentares estavam associados aos seus sintomas. “São eles, preço (‘porque é barato’), prazer (‘para me deliciar’), socialização (‘para passar tempo com outras pessoas’), “alimentação tradicional” (‘cresci comendo isso’), ‘atração visual’ (‘a embalagem é atraente’), normas sociais, controle de peso (‘quero perder peso’) e controle de emoções”, aponta o professor.

“Os sintomas que caracterizam o comer transtornado não são, necessariamente, critérios para o diagnóstico de um transtorno alimentar. Contudo, eles constituem fatores de risco para o desenvolvimento dessas condições”, ressalta Roschel.

“Portanto, nosso estudo não avaliou diretamente sintomas de transtornos alimentares, mas sim de fatores de risco para o desenvolvimento dos mesmos.”

De acordo com o professor, os achados do estudo indicam uma prevalência muito baixa de “comer transtornado” em seguidores de dieta vegana, cerca de dez vezes menor do que a encontrada numa amostra de características similares consumindo dietas variadas no Brasil. “Os resultados sugerem que a presença de comer transtornado em veganos pode estar mais associada aos motivos que levaram essas pessoas a adotar essa dieta do que à dieta em si”, observa. “Conclui-se que a dieta vegana em si não é a causadora de possíveis transtornos, mas sim os motivos que levam a essa mudança, como para qualquer outra, bem como o que motiva as escolhas alimentares dessas pessoas.”

O estudo foi realizado pelo Grupo de Pesquisa em Fisiologia Aplicada e Nutrição da FMUSP/EEFEUSP, coordenado pelo professor Hamilton Roschel. O trabalho foi liderado pelas pesquisadoras Bruna Caruso Mazzolani e Fabiana Infante Smaira e teve colaboração dos pesquisadores Bruno Gualano, Gabriel P. Esteves, Martin Hindermann Santini, Alice Erwig Leitão e Heloísa Santo André.

O artigo sobre a pesquisa, Disordered Eating Attitudes and Food Choice Motives Among Individuals Who Follow a Vegan Diet in Brazil, foi publicado no site Jama Network, da American Medicine Association.

Mais informações: e-mail hars@usp.br, com o professor Hamilton Roschel [1], [2]

[1] Texto de Júlio Bernardes.

[2] Publicação original: https://jornal.usp.br/ciencias/ciencias-da-saude/ocorrencia-de-comer-transtornado-em-veganos-e-menor-que-entre-seguidores-de-outras-dietas/.

Como citar este texto: Jornal da USP. Ocorrência de “comer transtornado” em veganos é menor que entre seguidores de outras dietas.  Texto de Júlio Bernardes. Saense. https://saense.com.br/2023/07/ocorrencia-de-comer-transtornado-em-veganos-e-menor-que-entre-seguidores-de-outras-dietas/. Publicado em 18 de julho (2023).

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