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10/05/2024

Imagem: PxHere, CC0 Domínio público

Isaac Roitman

Quando nascemos, o nosso aprendizado é limitado pelo que percebemos na vida intrauterina, representado, principalmente, por sons de múltiplas sequências, como se fossem uma orquestra. Além disso, o feto percebe outros ruídos externos, como vozes e buzinas. É admitido que, depois do quarto mês, o feto reage aos sons e ao toque e começa a criar o vínculo afetivo profundo com a mãe. Nos últimos três meses de gravidez, o bebê já percebe muito do que acontece ao seu redor. Alguns pesquisadores acham que ele até começa a apreciar música e a se acostumar com a linguagem. Ao nascer, chora, iniciando uma transição marcada por uma respiração pulmonar independente. Após o nascimento, uma série de transformações ocorrem no corpo do bebê para ajudá-lo a sobreviver e se adaptar na jornada chamada vida.

As crianças, desde cedo, estabelecem interações com as pessoas que lhes são próximas e com o meio que as circundam. Tentam compreender o mundo em que vivem e, por meio de brincadeiras, explicitam as condições de vida a que estão submetidas. Elas aprendem a falar, a terem desejos e estabelecem laços afetivos com a família, com outras crianças e adultos. O acelerado avanço técnico científico levanta questões inéditas no processo de aprendizagem, na interação social e suas relações com as mídias novas e antigas. Assim, surgem novos desafios nos processos de aprendizagem. A escola, na maioria das vezes conservadora, não entende e compreende a criança contemporânea, que fala e escreve em uma nova linguagem, subvertendo uma relação e provocando um conflito de gerações. A acessibilidade à internet nos lares e espaços coletivos vai aumentando o número de pessoas, incluindo o segmento infantil e juvenil, que, de alguma forma, vai pautando a conduta com seu grupo familiar, social, escolar e de seus pares. Elas vão moldando o seu imaginário, misturando ficção com a realidade.

A educação contemporânea enfrenta desafios significativos, tais como a necessidade de formação de indivíduos capazes de lidar com um mundo em constante mudança e a ampliação do acesso a uma educação transformadora para um convívio pacífico da sociedade humana. O sistema de educação formal — educação básica e superior — não se adaptou ainda aos avanços tecnológicos. A transmissão de conhecimento aos estudantes por meio de aulas tradicionais, muitas vezes, entediadas e não atrativas, é a que prevalece, embora Paulo Freire tenha nos alertado que a “formação bancária” deveria ser abandonada.

A meta da educação não pode se reduzir a uma formação profissional visando um bem-estar do educando. É absolutamente fundamental que seja incorporado o sentimento do coletivo e que sempre temos que ter afeto e preocupação com os outros. É importante enfatizar que o trabalho colaborativo é um instrumento importante na aprendizagem. Virtudes como solidariedade, ética, compaixão e outras devem se amalgamar na personalidade que está amadurecendo e moldar os costumes do presente e do futuro. O exercício do pensamento crítico e da criatividade deve ser transversal em todos os segmentos da educação. A escola ideal é aquela onde o pensamento é exercido permanentemente.

O papel do professor contemporâneo é um requisito fundamental na transformação educacional. Ele deve ter a capacidade de formar indivíduos autônomos, que saibam lidar com a diversidade e a incerteza e possam contribuir, de forma significativa, na construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Nesse contexto, as universidades, sobretudo as públicas, devem colocar como prioridade a formação desse “novo” professor. Sob o ponto de vista social, o trabalho de um professor é tão ou mais importante que o do que um delegado ou o de um juiz. Assim, o salário do professor deveria estar no topo da carreira pública. O professor deve ter uma carreira atrativa e condições de infraestrutura compatíveis com as tecnologias contemporâneas.

Políticas educacionais não deveriam estar somente na pauta de propagandas eleitorais. Precisam ser de Estado e não sofrerem interrupções causadas, muitas vezes, por rixas partidárias. Fechando essas breves reflexões, lembro novamente do nosso grande educador Paulo Freire, que disse: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser o opressor.” “Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.” [1], [2], [3]

[1] Isaac Roitman é doutor em Microbiologia, professor emérito da Universidade de Brasília e membro titular de Academia Brasileira de Ciências.

[2] Publicado originalmente, em 20 de abril, no site Correio Braziliense.

[3] Publicação na UNBNotícias: https://www.noticias.unb.br///artigos-main/7323-desafios-da-aprendizagem

Como citar este texto: UnB. Desafios da aprendizagem. Texto de Isaac Roitman. Saense. https://saense.com.br/2024/05/desafios-da-aprendizagem/. Publicado em 10 de maio (2024).

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