UnB
26/03/2026

O vírus Zika (ZIKV) altera a forma e o metabolismo das micróglias, principais células de defesa do sistema nervoso central, potencializando a inflamação cerebral. E o ômega-3 do tipo DHA (ácido docosahexaenoico) pode mitigar os efeitos nocivos desse agente infeccioso. Esses são os principais achados de estudo liderado pelo Laboratório de Imunologia e Inflamação do Departamento de Biologia Celular (Limi/CEL/IB), que culminou em artigo publicado este mês na prestigiada revista norte-americana Molecular Neurobiology.
O artigo é intitulado, em tradução livre, Vírus Zika reprograma o metabolismo mitocondrial da micróglia para apoiar a ativação imunológica e a replicação viral: o ômega-3 DHA neutraliza a neuroinflamação e a persistência viral. A publicação dá sequência ao tema da tese de doutorado defendida, em 2025, pela pesquisadora Heloísa Braz-de-Melo no Programa de Pós-Graduação em Patologia Molecular da Faculdade de Medicina (PPGM/FM), em sanduíche com a Universidade de Harvard.
“O ponto mais relevante do estudo é demonstrar que a micróglia não atua apenas como uma ‘vítima’ da infecção pelo Zika, mas apresenta uma adaptação metabólica que sustenta a ativação imune e, simultaneamente, favorece a replicação e a persistência viral”, explica Heloísa. Ao contrário do observado em outras células neuronais, o vírus não inviabiliza ou destrói as micróglias. Quando infectadas, elas mantêm atividade energética sem perda de função das mitocôndrias, aumentam a capacidade respiratória celular e adquirem forma que facilita o processo inflamatório.
“[Isso] indica que a micróglia pode ter um papel duplo na patogênese, amplificando a neuroinflamação e ao mesmo tempo mantendo um reservatório estável para a replicação do vírus”, afirma a pesquisadora, que considera as observações surpreendentes. Na avaliação dela, a constatação desse “alto grau de plasticidade” das micróglias insere o trabalho “no campo do imunometabolismo, no qual o funcionamento mitocondrial tem se consolidado como um eixo central na regulação das respostas imunes”.
Comparação de células em diferentes estágios de infecção. ZIKV (representado pela esfera azul clara com hastes) destrói outras células neuronais e muda forma e função das micróglias, com o aumento de citocinas pró-inflamatórias (esferas vermelhas) e da capacidade respiratória das mitocôndrias (bastão tracejado). Esferas azuis representam as citocinas anti-inflamatórias, e a amarela, gotículas de lipídio. Imagem: tradução de figura do artigo científico – João Paulo Parker/Secom UnB
A coordenadora do Limi, Kelly Grace Magalhães, entende que a pesquisa abre numerosas frentes de estudos, incluindo a emergente área do imunometabolismo. “Nossa pesquisa auxilia no entendimento do papel do metabolismo imunológico cerebral durante a infecção pelo vírus Zika e outros vírus neurotrópicos, e possibilita a exploração do uso do ômega-3 DHA como modulador da neuroinflamação e o desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas que não foquem apenas no vírus, mas também na resposta do indivíduo infectado”, afirma a professora, que orientou Heloísa no doutorado e é autora correspondente do artigo.
ÔMEGA-3 DHA – O potencial protetor do ômega-3 DHA, mais comumente encontrado em fontes animais, foi observado pela redução da carga viral, diminuição da inflamação e preservação da estrutura celular das micróglias que receberam pré-tratamento com a substância. Esses resultados ocorreram, entre outros aspectos, por meio da diminuição do RNA viral em até 50%, da menor atividade de receptores celulares e do bloqueio de secreção de citocinas que favorecem o processo inflamatório.
“Em termos simples, o DHA ajuda a micróglia a responder ao vírus de forma mais equilibrada, evitando uma ativação inflamatória exagerada que pode ser prejudicial ao cérebro. Esse efeito envolve tanto mecanismos metabólicos quanto regulatórios do sistema imunológico inato”, explica Kelly Grace. Ela esclarece que o estudo “não propõe o DHA como uma cura ou tratamento isolado, mas mostra que nutrientes bioativos podem atuar como moduladores da resposta do hospedeiro à infecção viral”. “Isso é especialmente relevante para infecções que afetam o sistema nervoso, para as quais ainda existem poucas opções terapêuticas”, complementa.
Na avaliação da professora, novos estudos podem combinar o uso do DHA com antivirais clássicos e estratégias de nutrição e modulação da imunidade. Ela faz a ressalva de que ainda não se pode afirmar que a resposta do consumo alimentar do ômega-3 vai ter o mesmo efeito observado em modelos celulares em laboratório. “No entanto, os dados reforçam evidências já existentes de que o DHA tem propriedades anti-inflamatórias e imunomoduladoras relevantes para o sistema nervoso. Estudos clínicos futuros serão necessários para definir doses, formas de suplementação e contextos em que esse efeito pode ser observado em humanos”, afirma.
Transmitido pela picada do mosquito Aedes aegypti, vetor dos vírus da dengue e da chikungunya, o Zika está associado a complicações como a microcefalia congênita e a síndrome de Guillain-Barré, condição autoimune que acomete nervos periféricos. Segundo o Ministério da Saúde, não há vacinas ou terapias específicas para contê-lo.
PESQUISAS DE PONTA – As pesquisadoras analisam o estudo como demonstração de que a ciência vai além da descrição do problema e avança na compreensão de mecanismos e na proposição de soluções. Para Heloísa Braz-de-Melo, os resultados atestam que “é possível produzir ciência competitiva na UnB”. Na mesma linha, a orientadora dela diz que a Universidade é capaz de “produzir ciência de fronteira, com impacto internacional, integrando imunologia, neurociência, virologia e metabolismo”.
Kelly Grace Magalhães também destaca a Universidade como formadora de recursos humanos qualificados e classifica a experiência de orientar Heloísa como “extremamente gratificante”. “Ela foi uma aluna muito dedicada, responsável e tecnicamente competente, sempre demonstrando compromisso, maturidade científica e grande capacidade de seguir orientações, conduzir experimentos complexos e interpretar dados de forma crítica”, diz a professora, que enfatiza a importância da experiência da ex-orientanda em Harvard. [1], [2]
[1] Texto de Hugo Costa
[2] Publicação original: https://www.unbciencia.unb.br/biologicas/104-ciencias-biologicas/769-pesquisa-aponta-potencial-protetor-do-omega-3-em-infeccoes-cerebrais-pelo-virus-zika
Como citar este texto: UnB. Pesquisa aponta potencial protetor do ômega-3 em infecções cerebrais pelo vírus Zika. Texto de Hugo Costa. Saense. https://saense.com.br/2026/03/pesquisa-aponta-potencial-protetor-do-omega-3-em-infeccoes-cerebrais-pelo-virus-zika/. Publicado em 26 de março (2026).