UFRGS
12/04/2024

Ilustração: Grégori Machado Nunes/ Programa de Extensão Histórias e Práticas Artísticas, DAV-IA/UFRGS

Por que pintar um retrato a óleo nos dias atuais? Em uma época em que as ferramentas de captação e criação de imagens se tornaram amplamente acessíveis, as características da pintura a óleo, como o seu prolongado tempo de produção, a secagem lenta e a necessidade de extensas e demoradas sessões entre o modelo e o artista, podem parecer limitações desnecessárias frente à tecnologia atual, que com apenas um clique nos proporciona resultados que podem levar meses para serem alcançados com tinta. Entretanto, o retrato em pintura ainda pode preservar, em seu gênero, um vasto mundo de reflexões e ideias, capazes de enriquecer o debate no campo da arte contemporânea.

Na minha pesquisa em arte, intitulada “O retrato, o autorretrato e o espaço da intimidade”, realizada com a orientação da professora Marilice Villeroy Corona, do Instituto de Artes da UFRGS, busquei, por meio da pintura a óleo, explorar formas de capturar o interior das pessoas a partir do seu exterior. A psicologia única de cada um, revelada apenas de maneira íntima e pessoal, foi o foco central da investigação.

O início se deu através da minha própria imagem, o autorretrato. Nessas pinturas eu estou na maioria das vezes de olhos fechados, parecendo dormir. Minha intenção era me expor ao observador de modo que eu estivesse alheio a ele. Pois, quando estamos dormindo, estamos de certa forma desligados do mundo externo, despidos das idiossincrasias da sociedade, imersos apenas em nossas cabeças, o local onde se encontra a nossa consciência, um momento de grande fragilidade e intimidade.

Trabalhei com o conceito de autoexame nessas pinturas. Influenciado por Lucian Freud e os seus inúmeros autorretratos, especialmente aqueles realizados após os seus 40 anos, um momento que como o mesmo reconheceu no livro Lucian Freud: The Self-Portraits, foi de “rigoroso autoexame”.

Refleti sobre o autorretrato ser uma forma de o artista discutir sobre si, refletir sobre o seu lugar no mundo, colocar para fora em forma de arte os questionamentos do seu eu interior, me autoexaminando no caminho, buscando no meu íntimo os motivos que me levaram a produzir os meus autorretratos.

Durante a confecção dos retratos de outras pessoas, o conceito de retrato psicológico foi meu guia. Segundo Shearer West, no livro Oxford History of Art: Portraiture, “o retrato psicológico seria a ideia de que os retratos devem comunicar algo sobre o estado psicológico ou a personalidade do modelo”. Para Norbert Schneider, em A Arte do Retrato, havia indícios dessa psicologização do retrato já no século XV, “através de estados íntimos, na evocação da atmosfera e na representação pictórica de atitudes mentais e morais”.

No meu caso, o modo que eu encontrei para abordar essas questões foi criando um espaço íntimo, um ambiente privado que evocasse a sensação de solidão e melancolia. Isso proporcionou às pessoas retratadas uma maior liberdade de se desvincular da necessidade de apresentar uma imagem que se alinhasse às expectativas tradicionais de um retrato, permitindo uma representação mais autêntica de sua psique.

Para obter essa imagem eu utilizei a fotografia, através de sessões de fotos particulares. Para conseguir a naturalidade desejada por mim, tentava deixar o retratado mais relaxado possível, conversando com ele, trocando pensamentos, tentando fazer ele falar sobre si ou dar risadas, enquanto o mirava pelo obturador. Porque quanto mais tempo passa, mais a pessoa pode se sentir segura, e a oportunidade de sua personalidade se revelar torna-se muito maior.

Ao longo da elaboração desta pesquisa, uma de minhas reflexões mais significativas foi ter a percepção de que os fundamentos, tanto estéticos quanto conceituais, que guiaram este trabalho estavam intrinsecamente ligados ao meu eu, à minha própria forma de ver o mundo. Descobrir de maneira clara a manifestação da minha personalidade refletida em minhas pinturas foi uma revelação de grande interesse.

Num mundo cada vez mais rápido e dinâmico, onde o retrato parece ter se tornado apenas um registro fugaz, com prazo de validade, tratá-lo como algo único e insubstituível pode ser uma contradição. No entanto, questionar-se sobre o mundo ao redor é algo inerente ao artista. Busquei na pintura a óleo uma forma de poder retratar aquilo que muitas vezes fica escondido, a nossa intimidade, utilizando o gênero do retrato para tal fim. [1], [2]

[1] Texto de Grégori Machado Nunes

[2] Publicação original: https://www.ufrgs.br/jornal/o-retrato-o-autorretrato-e-o-espaco-da-intimidade/

Como citar esta notícia: UFRGS. O retrato, o autorretrato e o espaço da intimidade. Texto de Grégori Machado Nunes. Saense. https://saense.com.br/2024/04/o-retrato-o-autorretrato-e-o-espaco-da-intimidade/. Publicado em 12 de abril (2024).

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